sábado, 15 de fevereiro de 2014

Lembra Dele? Wladimir compara atual fase do Timão ao início da Democracia

Recordista de jogos pelo Corinthians, ex-lateral é funcionário da prefeitura de São Sebastião e crê que crise no time acabaria se jogadores reagissem: 'A coisa está feia'

Por São Sebastião, SP

Wladimir lateral-esquerdo Corinthians (Foto: Filipe Rodrigues)Wladimir, lateral-esquerdo ex-Corinthians, hoje trabalha em São Sebastião (Foto: Filipe Rodrigues)
 
Janeiro de 1982. Após o rebaixamento para disputar a Taça Prata, à época equivalente à Série B do Campeonato Brasileiro, jogadores e dirigentes do Corinthians se encontram para uma reunião.

 Sociólogo e dirigente do Timão, Adilson Monteiro Alves dá a voz para que cada jogador dê seu ponto de vista sobre o que está errado. Entre os jogadores está o lateral-esquerdo Wladimir, atleta que mais vestiu a camisa do Corinthians na história, com 803 jogos disputados durante duas passagens, entre 1972 e 1987. Ali começa uma lavação de roupa suja com críticas para questões estruturais e individuais no ambiente alvinegro. Diante dos problemas levantados, a solução sugerida pelo próprio Adilson foi ousada para um país que vivia assolado pela ditadura: as decisões do clube seriam decididas por votos de jogadores e funcionários. Cada atleta teria voz, mas, para isso, teria de corresponder em campo. O movimento recebeu o nome de "Democracia Corintiana".
 
Wladimir ainda lembra daquela reunião e do clima no Corinthians após o rebaixamento para a disputa da Taça Prata. Para ele, a situação é semelhante à que o clube vive hoje, com constantes protestos da torcida e, apesar do talento técnico dos atletas, a falta de um bom desempenho em campo. 
 
Prestes a completar 60 anos, o ex-lateral hoje é funcionário da prefeitura de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Atua como porta-voz do prefeito Ernane Primazzi em conversas com deputados e outros políticos para projetos envolvendo o município de pouco mais de 70 mil habitantes. Apesar do novo cargo, andar com Wladimir na rua é ser parado a cada passo para ouvir uma análise sobre a situação do Timão, a relação conturbada entre time e torcida e o que precisa ser feito. Para ele, a solução é dar poder e responsabilidade para que os jogadores se unam e definam os rumos do clube.

Eles têm que achar a forma para reagirem. Está feia a coisa 
Wladimir, sobre atual fase do Corinthians

– Era uma situação adversa. Tínhamos caído para a Taça de Prata. Isso para um clube com a grandeza do Corinthians é mortal. Passamos a refletir sobre o que estava acontecendo e o que tinha acontecido. A partir disso, cada um começou a expor o que estava acontecendo. Esse exercício de participação foi essencial para a gente denominar "Democracia Corintiana". Tínhamos o prazer de participar das decisões. Pela experiência, sabemos que a resposta está lá dentro. Não somos nós de fora que vamos sugerir. Eles têm que achar a forma exata para reagir.

 Está feia a coisa - afirma o lateral, que tem 32 gols marcados e quatro títulos paulistas conquistados pelo clube alvinegro.

Dos 15 anos em que atuou no Corinthians como lateral, Wladimir chegou a jogar com costela quebrada, tornozelo torcido e febre de 40 graus. Amor que começou antes de o jogador se profissionalizar, durante uma excursão à Europa.

realidade corintiana

vladimir corinthians  (Foto: Agência Estado)Wladimir em seus primeiros anos de Corinthians
(Foto: Agência Estado)
 
Antes de estrear como profissional pelo Corinthians, Wladimir foi chamado para uma excursão pela Europa, onde o time jogaria contra Besiktas e Galatasaray, na Turquia, e contra o Olympiakos, na Grécia. A excursão também passou por Iugoslávia, Itália e Espanha. Para surpresa do então juvenil, que tinha 18 anos, tanto nos locais dos jogos, quanto nas escalas de avião, o elenco corintiano foi abordado por torcedores do Timão. A experiência deu ao jogador uma noção do time que estava defendendo.

– O amor pelo time foi amadurecendo a partir do momento em que defendíamos o Corinthians e vivíamos a mística. Fiz uma excursão pela Europa e em todos os países havia corintianos, que vinham nos dar boa sorte e mostrar que pagavam a taxa de associado ao clube. Isso tudo faz do Corinthians um dos maiores do mundo, sem dúvida.

Após a viagem, Wladimir ainda teve que esperar seis meses para ter chance de estrear no profissional. A cena ainda está fresca na memória do lateral-esquerdo. Foi em 5 de junho de 1973, contra o São Bento, pelo Campeonato Paulista. Antes de entrar em campo, as pernas do garoto tremeram. O duelo, no Pacaembu, abriu o segundo turno do torneio. Estreando como titular, ele colaborou para a vitória por 3 a 1.

O jovem jogador agradou ao técnico Yustrich e só abandonou a posição de titular na lateral esquerda 13 anos depois. Antes disso, colaborou para o fim da seca de títulos do Alvinegro e liderou um dos momentos mais marcantes da história do Timão.
fim do jejum e início da democracia
 
Wladimir se firmou e virou unanimidade em um time que carecia de ídolos e títulos. O Corinthians não erguia um troféu desde 1954, quando faturou Campeonato Paulista e torneio Rio São Paulo. A cobrança e a ansiedade só foram terminar em 1977. E o lateral teve participação decisiva na conquista do Paulistão daquele ano. Na final contra a Ponte Preta, o Corinthians vencia por 1 a 0 o terceiro jogo da decisão, no Morumbi. A Macaca pressionava e o Timão buscava um gol para matar o jogo. O técnico Brandão só pôde comemorar aliviado aos 38 minutos, quando Wladimir cabeceou, a zaga tirou em cima da linha e Basílio completou para a rede. 2 a 0 e fim do incômodo jejum (veja acima o vídeo com os gols).

Mais leve, o Corinthians ainda voltou a vencer o torneio em 1980. Mas, no ano seguinte, veio a derrocada. Oitavo colocado no Paulista e 26º no Campeonato Brasileiro, o Timão foi obrigado a disputar a Taça de Prata do nacional de 1982. Foi então que houve a reunião e a decisão para que os jogadores passassem a tomar decisões vitais que envolviam o elenco. Tudo era votado. Aqueles que não se adaptaram deixaram o clube, como lembra Wladimir.

– Em um grupo de 20, 30 pessoas, lógico que existem aqueles que pensam diferente e quatro ou cinco saíram. A maioria decidiu que faríamos tudo coletivamente. Isso foi perfeito porque tínhamos um grupo que pensava mais ou menos a mesma coisa, consciente das responsabilidades. Graças a isso, atingimos um estágio maravilhoso dentro do futebol.

vladimir corinthians bicicleta gol contra tiradentes (Foto: Agência Estado) 
De bicicleta, Vladimir marca contra o Tiradentes 
na maior goleada da história do Brasileiro: 10 a 1 
(Foto: Agência Estado)
 
Os resultados foram colhidos dentro e fora do campo. O Corinthians venceu o Campeonato Paulista de 1982 e 1983, voltou à Taça Ouro do Brasileiro e, logo de cara, terminou em quarto lugar. Foi a época que mais marcou Wladimir no Corinthians e que chegou ao fim no início de 1985, quando a diretoria corintiana não foi reeleita e Jair Pereira assumiu como treinador. Foi também o fim da Era Wladimir no Corinthians. O lateral foi dispensado e acertou com o Santo André. Mas ainda não era um "adeus". Apenas um até breve.

wladimir x maradona
O presidente do Corinthians, eleito em 1985 e com mandato até 1987, era Roberto Pasqua.

 Quando chegaram as novas eleições do Timão, Pasqua teria que vencer um cartola lendário se quisesse se reeleger. Seu adversário foi Vicente Matheus. Para ganhar o apoio dos torcedores, Vicente usou Wladimir como bandeira de campanha. Se fosse eleito, traria o lateral-esquerdo de volta.

wladimir livro corinthians (Foto: Divulgação)Foto de Wladimir em livro sobre história do Corinthians (Foto: Divulgação)
 
Ao ouvir a promessa do rival, Roberto Pasqua reagiu de forma inusitada. Prometeu Maradona, que tinha sido eleito o melhor jogador do planeta na Copa do Mundo de 1986, conquistada pela Argentina. Mas nem Maradona conseguiu derrubar a popularidade de Wladimir. Vicente Matheus foi eleito e o lateral-esquerdo, recontratado. Dessa vez, no entanto, a volta não foi como o atleta esperava e sua passagem foi de apenas um ano.

- Pela lei do passe da época, eu deveria ter 10 anos de clube e 32 anos de idade para ser dono do meu próprio passe. Já tinha 10 anos de Corinthians e tinha acabado de fazer 32 anos. Então recebi outras propostas interessantes e optei por sair - lembra o jogador.

Wladimir deixou o Corinthians em 1988 para defender a Ponte Preta. Sem ficar mais de um ano em outro clube na carreira, o lateral-esquerdo passou por Santos, Cruzeiro e São Caetano. Pendurou as chuteiras em 1991, pelo Central Brasileira.

vida na política
Para alguém que chegou a ser presidente do Sindicato dos Atletas na década de 1970 e liderou um dos principais movimentos políticos da história do futebol brasileiro, não é surpresa que após a aposentadoria dos gramados, Wladimir tenha se arriscado na vida política. Por duas vezes, tentou ser vereador em São Paulo, mas obteve pouco mais de cinco mil votos e não conseguiu ser eleito.

Veio então o convite, em 2009, para ser o secretário de Esportes de São Sebastião. Wladimir aceitou e comandou a pasta na cidade durante quatro anos. Após ser reeleito prefeito, Ernane Primazzi chamou o ex-jogador para o cargo de interlocutor para projetos que necessitem de apoio da Câmara dos Deputados de São Paulo ou de investidores.

Gabriel Internacional campeão (Foto: Wesley Santos / Agência PressDigital) 
Gabriel, filho de Wladimir, comemora título 
gaúcho pelo Internacional (Foto: Wesley 
Santos / Agência PressDigital)
 
Wladimir ainda encontra tempo para acompanhar a carreira do filho Gabriel, lateral-direito que começou no São Paulo e teve passagens por Fluminense, Grêmio e, mais recentemente, no Internacional. Apesar das dicas, o pai afirma que nunca tenta influenciar as decisões do filho, de 32 anos.

– Digo o que acho que tenho que dizer e o que ele precisa fazer. Gabriel já é maduro, uma pessoa independente. Ele sabe o que quer e sempre fez o que quis. A gente busca orientar pela vivência. 

Mas tenho de respeitar porque cada um tem um jeito e o mundo é diferente - diz.
Além de Gabriel, Wladimir é pai de Julio e Ludmilla, mais novos que o lateral-direito. Todos os filhos são com Roseli dos Santos, com quem é casado há 35 anos.



FONTE:
http://globoesporte.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2014/02/lembra-dele-wladimir-compara-atual-fase-do-timao-ao-inicio-da-democracia.html

Nenhum comentário: