sábado, 24 de agosto de 2013

Império em ruínas: Campeonato Italiano inicia edição pouco badalada

Com clubes em crise financeira, 'calcio' perde craques e conta com poucos brasileiros de destaque. Atual bicampeão, Juventus parte como favorito

Por Felipe Schmidt e Lucas Loos Rio de Janeiro





Houve um tempo em que um império localizado na Península Itálica era o centro do mundo, até ruir por causa de sua própria desorganização e a ofensiva de guerreiros vindos do norte. Como a história costuma se repetir, como prega o ditado popular, a queda agora se dá no esporte mais popular do mundo: foi-se o tempo em que o Campeonato Italiano, cuja temporada 2013/2014 começa neste sábado, era o mais importante da Europa. Envolto em problemas econômicos e estruturais, o "calcio" inicia sua edição menos badalada nos últimos anos, ofuscado principalmente pela liga alemã, justamente dos descendentes daqueles povos que um dia puseram fim ao Império Romano.

Exemplo de organização na Europa, a Bundesliga desbancou o Campeonato Italiano do terceiro lugar do ranking da Uefa há duas temporadas, fazendo com que o calcio perdesse um representante na Liga dos Campeões. Fora de campo, a distância entre os dois torneios é grande: do lado germânico, estádios modernos, times competitivos e fãs assíduos. Pelos herdeiros dos romanos, escândalos de manipulação de resultados, violência entre torcidas e êxodo de craques.

- São duas culturas diferentes. Cultura como cultura e cultura futebolística. Pensamentos diferentes. Cada um com sua maneira de fazer futebol. São duas ligas muito importantes a nível mundial. A liga italiana não tem o que aprender. Tem momentos que vão pender para um lado ou para o outro. O ambiente (na Itália) está um pouco contaminado. Mas é um campeonato de muita tradição. É muito forte, muito disputado. Apesar de não ter tanto brilho que nem antes, tem a tradição, a camisa que pesa - defendeu o meia Hernanes, do Lazio.

Mosaico Campeonato italiano astros sobreviventes (Foto: Editoria de Arte)
 
Crise financeira = debandada de brasileiros
O Profeta, aliás, representa um dos indicadores de que o futebol na Itália perdeu um pouco de seu prestígio: o baixo número de brasileiros de destaque atuando no país. Além de Hernanes, apenas Robinho, do Milan, e Maicon, do Roma, se enquadram na categoria. A última perda foi a do zagueiro Marquinhos, que deixou os giallorossi da capital rumo ao Paris Saint-Germain por € 35 milhões (cerca de R$ 105 milhões). No ano anterior, Thiago Silva deixou o Milan e também fechou com os franceses.

- Acho que isso se deve um pouco à crise econômica. É apenas uma fase não ter muito jogador brasileiro aqui com destaque. Na verdade, tem bastante brasileiro por aqui, embora a maioria não tenha muito destaque no Brasil - comentou Hernanes.


Hernanes Lazio (Foto: Getty Images) 
Hernanes é um dos poucos brasileiros de renome restantes na Serie A (Foto: Getty Images)
A questão financeira surge como principal vilã na queda do império do futebol italiano, que no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990 concentrava os principais craques do mundo. Os problemas, porém, não são apenas consequência da crise no país. Fatores relacionados com a falta de organização dos clubes locais, como o desleixo com os estádios, o atraso nas estruturas e os escândalos de manipulação de resultados, também contribuíram para a atual situação do "calcio".
- O futebol italiano perdeu terreno por conta da crise econômica que o país está atravessando, Isso provocou investimentos menores de patrocinadores. Além disso, há o problema dos estádios, que não são acolhedores. Uma solução para o calcio pode ser o surgimento de estádios próprios dos clubes, algo que deu bons resultados na Inglaterra. Precisamos focar em estádios confortáveis se queremos aumentar a atratividade da liga e as receitas dos jogos. Assim, o nível da Serie A pode voltar a ser igual ao do passado – analisou Cristiano Giaretta, diretor esportivo do Udinese, um dos clubes tidos como modelo no país, pela gestão responsável dos recursos.

A falta de dinheiro, portanto, se reflete diretamente na ausência de brasileiros. Geralmente valorizados, eles foram para outros mercados, que embora não tenham a mesma tradição da Itália, têm orçamentos mais generosos.

- Os times italianos não podem oferecer salários muito grandes. E, sobretudo, há a concorrência das outras ligas. Em outros anos seria impossível que um jogador como Hulk fosse para o Campeonato Russo. Salários baixos e concorrência maior têm como resultado menos jogadores de destaque na Itália – ponderou o jornalista Jacopo Gerna, do diário “La Gazzetta dello Sport”.

Rubinho Juventus (Foto: Reprodução / Juventus.com) 
Rubinho está no Juventus após passar por diversos times italianos (Foto: Reprodução / Juventus.com)
No futebol italiano desde 2006, o goleiro Rubinho tem conhecimento de causa para analisar o "calcio". Com passagens por Genoa, Palermo, Livorno e Torino, o reserva do Juventus não acredita em decadência do futebol local, e sim em mais responsabilidade dos dirigentes. E lembra algo importante: a Itália é um dos poucos países sem a presença de magnatas bilionários do Oriente Médio e da Rússia como donos de clubes.

- Não sei se há decadência aqui. Lógico que a Itália não tem o poderio financeiro da Alemanha e da Inglaterra, mas o Campeonato Italiano sempre vai ser um torneio de referência. Infelizmente, dentro da Itália não tem um clube com um árabe louco investindo, pagando € 100 milhões num jogador que tem seis meses como profissional. Creio que os clubes são mais conscientes com as contas – opinou o jogador.

Em terra de cego...
Num cenário complicado, leva vantagem quem tem o mínimo de organização. É o caso do Juventus, atual bicampeão italiano. A Velha Senhora é o único clube com estádio próprio, o que lhe permite um orçamento acima dos demais. Suficiente para atrair jogadores como Tevez e Llorente, que, ao lado de Buffon, Pirlo, Vidal e o técnico Antonio Conte, formam a base para a busca pelo terceiro scudetto consecutivo. Mas, acima de tudo, o ponto forte dos bianconeri está na estrutura oferecida aos atletas.

- No Juventus, a gente tem uma estrutura excepcional. Nos outros clubes em que passei, não havia a mesma coisa. A prioridade do Juventus é me dar todas as condições necessárias para jogar e se dar bem - disse Rubinho.

Juventus Taça Super Copa (Foto: Reuters) 
Campeão da Supercopa, Juventus busca o tri da Serie A (Foto: Reuters)
Grande favorito ao título, o Juventus tem como desafio se fortalecer também na Europa. Na temporada passada, mesmo com o domínio doméstico, o time não foi páreo para o Bayern de Munique, que eliminou facilmente a Velha Senhora nas quartas de final da Liga dos Campeões. A questão, agora, é se os reforços serão suficientes para diminuir a diferença para os alemães.

- O Juventus é o claro favorito para o título italiano, embora eu ache que este ano será mais difícil do que da última vez. Mas acho que o time continua incompleto para a Champions. Ainda há três ou quatro times muito superiores na Europa. Na minha opinião, o Juve ainda precisa de um grande centroavante, que não será Llorente. Tevez é um ótimo atacante, mas não é um artilheiro – analisou o jornalista Jacopo Gerna.

Silvio Berlusconi Milan (Foto: AP) 
'Acabou o dinheiro': Berlusconi tenta implantar uma política mais austera no Milan (Foto: AP)
Berlusconi fecha a torneira no Milan
Curiosamente, no Milan o problema é diferente. Artilheiros não faltam – como provam Balotelli e El Shaarawy -, mas a situação financeira não é das melhores. No início da temporada passada, o clube teve de vender Thiago Silva e Ibrahimovic para fazer caixa. Na época, o presidente dos rossoneri, Silvio Berlusconi, avisou que não gastaria mais grandes somas em jogadores  e procuraria formar uma equipe jovem.

A nova política, porém, teve impacto nos gramados. O Milan foi muito mal na primeira metade da temporada e só se recuperou a partir de janeiro, com a chegada de Balotelli – quebrando a promessa de austeridade de Berlusconi -, assegurando uma vaga na Liga dos Campeões. Ainda assim, o time está longe das potências europeias. Pouco para quem chegou ao topo do continente em 2003 e 2007.

- O problema do Milan é financeiro. Há poucos anos, antes das saídas de Kaká e Shevchenko, Berlusconi gastava dinheiro do próprio bolso para cobrir o prejuízo do clube. Em um certo ponto, decidiu não fazer mais isso, e o Milan perdeu competitividade. A crise econômica na Itália afetou sua influência política. Seus filhos preferem que o Milan seja autossustentável – explicou Gerna.
Para a próxima temporada, os rossoneri pouco investiram. As apostas foram em jovens, como o meia Saponara, comparado a Kaká, e o volante Poli, já com passagens por Inter de Milão e Sampdoria. As esperanças seguem depositadas em Balotelli e El Shaarawy. Brasileiros? Apenas Robinho, ainda lutando para recuperar a forma física após quase ir para o Santos, e o goleiro reserva Gabriel, ex-Cruzeiro.

Balotelli e Schaars Milan e PSV (Foto: Agência Reuters) 
Balotelli é a esperança do Milan na temporada (Foto: Agência Reuters)
Revolução nerazzurra
Do lado azul e preto de Milão, a situação também não é das melhores. Na última temporada, o Inter de Milão terminou em sétimo lugar, sem conseguir a classificação para as competições europeias. Para este ano, os nerazzurri investiram na contratação do técnico Walter Mazzarri, ex-Napoli. O treinador é a grande esperança para que o time volte a ser protagonista.

- No ano passado, a gente começou bem o campeonato, chegamos até a zona da Liga dos Campeões, mas depois tivemos muitos problemas com lesões e acabamos perdendo peças importantes. Creio que fizemos um bom mercado, e a chegada do Mazzarri só acrescenta, pois ele é um treinador experiente, que conhece muito o futebol italiano. Acredito que podemos fazer um grande campeonato – disse o zagueiro Juan, que permanece como titular com o novo técnico.

Juan Jesus e Jonathan Biabiany, Parma e Inter de milão (Foto: Agência Reuters) 
Juan é uma das apostas do Inter de Milão (Foto: Agência Reuters)
Napoli 'espanhol', Lazio e Fiorentina: candidatos a surpresa
Com os rivais de Milão em baixa, quem surge como principal concorrente do Juventus ao título é o Napoli. Mesmo tendo perdido o artilheiro Cavani, vendido para o PSG, o clube do sul da Itália investiu bem. Sob a batuta do técnico Rafa Benítez, vieram os espanhóis Albiol (zagueiro), Callejón (meia) e Reina (goleiro). Mas a principal estrela é o atacante Higuaín, ex-Real Madrid, nova esperança de gols dos azzurri.

Gonzalo Higuaín Napoli (Foto: Getty Images) 
Higuain em sua chegada ao Napoli: recepção de  ídolo do substituto de Cavani (Foto: Getty Images)
- O Napoli perdeu Cavani, mas o substituiu muito bem com Higuaín, e se reforçou bem. Pode ser o principal rival do Juventus, especialmente se sair cedo da Liga dos Campeões – analisou Gerna.
Quem também sonha incomodar os grandes é a Fiorentina. Depois de perder a vaga na Liga dos Campeões para o Milan na última rodada da temporada passada, a Viola voltou a se reforçar bem - trouxe o centroavante Mario Gómez, ex-Bayern de Munique - e, mesmo sem o ídolo Jovetic, é vista como possível surpresa.

Por fim, há o Lazio de Hernanes, embora o próprio meia evite fazer projeções mais ambiciosas. Para ele, a tradição ainda faz a diferença na Serie A. Afinal de contas, história é o que não falta na Itália, e deve ser sempre levada em conta.

- Cito os três grandes (Juventus, Milan e Inter) como favoritos, que têm condições de poder ganhar títulos. A camisa e a tradição contam muito. Antes de começar, prefiro arriscar esses três entre os favoritos. Depois, quando a bolar rolar, outros são os favoritos. Nós (Lazio) temos feito bons campeonatos. Tenho aprendido que é melhor entrar sem fazer planejamento. Temos que pensar em melhorar, porque temos qualidade. Sem pensar em Champions, título ou coisa do tipo - finalizou o brasileiro.

FONTE:
http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-italiano/noticia/2013/08/imperio-em-ruinas-campeonato-italiano-inicia-edicao-pouco-badalada.html

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