quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pelé faz crítica a Aranha: "Quanto mais se falar, mais vai ter racismo"

Em evento de patrocinador no Rio de Janeiro, Rei também fala pela primeira vez sobre a queda da Seleção na Copa do Mundo e define como um desastre


Por Rio de Janeiro

 
Assim como no caso da maioria dos brasileiros, a decepção da Seleção na Copa do Mundo ainda está fresca na memória de Pelé. Caminhando lentamente em virtude de uma cirurgia no quadril realizada no ano passado, o Rei do Futebol participou de um evento de um patrocinador pessoal, nesta quarta-feira, no Morro da Mineira, Zona Norte do Rio de Janeiro, e não deixou de falar sobre o Mundial. Em sua primeira aparição pública no país após a competição, a lenda tratou como um "desastre" a derrota por 7 a 1 para a Alemanha nas semifinais.

- Não é preciso explicar muito o que aconteceu na Copa do Mundo. Foi um desastre. Esperávamos algo diferente. Mas são coisas do futebol. Infelizmente, foi uma surpresa negativa para nós – disse o Rei, que se emocionou e chorou durante a coletiva de imprensa, quando falava sobre a importância de um campo reformado para a comunidade da Mineira.


Pelé comentou o episódio de racismo sofrido pelo goleiro Aranha, do Santos, durante a partida contra o Grêmio, na Arena do Grêmio, há duas semanas em Porto Alegre. O Rei disse que é importante combater o racismo, mas condenou a atitude do jogador, que reagiu aos gritos de "macaco" vindos da arquibancada. O clube gaúcho foi julgado e excluído da Copa do Brasil por conta do episódio.

- O Aranha se precipitou em querer brigar com a torcida. Se eu fosse querer parar o jogo cada vez que me chamassem de macaco ou crioulo, todos os jogos iriam parar. O torcedor grita mesmo. Temos que coibir o racismo. Mas não é num lugar publico que você vai coibir. O Santos tinha Dorval, Coutinho, Pelé... todos negros. Éramos xingados de tudo quanto é nome. Não houve brigas porque não dávamos atenção. Quanto mais se falar, mais vai ter racismo.


Pelé Evento Rio de Janeiro (Foto: Agência EFE)
Pelé esteve em uma comunidade do Rio 
de Janeiro nesta quarta-feira (Foto: 
Agência EFE)


Durante o evento, o Rei do Futebol brincou com os jornalistas sobre a fama de pé-frio e cobrou quem costuma criticá-lo por falhar nos palpites.
- Antes da Copa falei que Alemanha, Espanha, Holanda e Brasil iriam chegar. Só a Espanha não chegou. Quando eu acerto ninguém fala.

Para Pelé, um dos problemas da seleção brasileira na Copa do Mundo foi que toda a responsabilidade foi jogada nas costas de Neymar. Na opinião do ídolo, o Brasil precisa de outros jogadores de alto nível para comandar a equipe ao lado do camisa 10 do Barcelona.

- No meu tempo, o Pelé era 10 do Santos, o Gerson era camisa 10, o Tostão, o Rivellino.... Quando montamos a seleção de 70, a melhor de todos os tempos, a maioria dos jornalistas criticava pois só havia camisas 10. Para se fazer uma seleção, é necessário uma equipe. O Neymar sozinho não vai ganhar uma Copa. Ele é muito bom, é uma cria do Santos. Mas precisamos de outros camisas 10 para ganhar uma Copa.

Pelé ainda elogiou o retorno de Dunga ao cargo de técnico da Seleção. No entanto, sem citar nomes, o ex-jogador disse que a Seleção precisa se livrar da influência de empresários para que possa voltar a ter sucesso.

- O Dunga já dirigiu a Seleção. É uma pessoa confiável. Conheço o Dunga pessoalmente e sei de sua seriedade. Não é difícil remontar uma seleção brasileira. Temos bons jogadores, mas precisamos ter consciência e seriedade. Acho que um dos problemas nos últimos anos foi que a seleção brasileira, embora tivesse os melhores jogadores, sempre dependeu de empresários. O empresário não se interessa se o time vai vencer. O empresário quer é colocar seu jogador na Seleção.

Pelé participou nesta quarta-feira da reinauguração de um campinho de futebol no Morro da Mineira, no Rio de Janeiro. Projeto da Shell, patrocinadora do Rei, desenvolveu uma maneira de que, quanto mais os moradores jogarem no local, mais energia será gerada para os refletores da comunidade.

No total, foram instaladas 200 placas subterrâneas que vão capturar energia cinética, criada pelo movimento dos jogadores. Esta energia, posteriormente, será armazenada e combinada com o poder gerado por painéis solares próximos ao campo, convertendo-se em energia renovável para os novos holofotes instalados. Permitindo, assim, que o local seja utilizado pelos moradores durante a noite.

- O meu pai colocou o nome de Edson por conta do Thomas Edison (descobridor da energia elétrica). Agradeço a oportunidade de mais uma vez estar trabalhando para o meu país, para o futuro das crianças. Desculpa pelo vexame mais uma vez – disse Pelé, se desculpando pelo fato de estar chorando ao falar sobre o projeto. 

Após a coletiva, o eterno camisa 10 da canarinho explicou o motivo para as lágrimas.

- Me emocionei porque sou um cara muito abençoado por Deus, que me deu essa chance de mais uma vez ajudar as criancinhas do Brasil.


FONTE:
http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2014/09/pele-sobre-participacao-brasileira-na-copa-do-mundo-um-desastre.html

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