sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Ícone de geração multicampeã, Giba se aposenta do vôlei: "Bem resolvido"

Aos 37 anos, ponteiro encerra ciclo como atleta e só joga de brincadeira na praia


Por Rio de Janeiro

Os passos até a quadra são feitos lentamente. Giba não carrega na bolsa mais o velho material, mas sim as três medalhas olímpicas. Não tem ciúme. Permite que quem se interessa por elas possam segurá-las. Diz que não são dele, "são nossas". No lugar do uniforme, calça, camisa social e sapatos. O ponteiro de tantos títulos, que marcou uma geração vitoriosa do vôlei brasileiro, estava pronto para ser chamado de ex-jogador. Nesta sexta-feira, Giba colocou um ponto final em sua carreira de atleta. Aos 37 anos, quer começar uma nova história. E mesmo que as palavras dissessem que estava tranquilo, os olhos teimavam em mostrar que aquele momento era difícil. Durante a entrevista, se emocionou várias vezes.
 
O primeiro ensaio de aposentadoria foi no ano passado. Não espontâneo, mas forçado. Depois de se despedir da seleção nas Olimpíadas de Londres, Giba fez as malas e foi defender o Bolívar, da Argentina. A ideia era jogar mais uma temporada e parar de vez. Mas a passagem por lá não saiu da maneira que imaginava. Sem receber salários durante sete meses e passando pelo processo de divórcio, não disputou as semifinais da Liga e voltou ao Brasil. Acreditava que se recolocaria rapidamente no mercado. Poucas propostas boas apareceram. Até que o Taubaté entrou em cena e o fez recuperar o fôlego. Queria se divertir e dar uma resposta: mostrar que continuava sendo o Giba. A permanência foi breve. O convite para atuar 12 meses como jogador e mais cinco anos como consultor do Al Nasr de Dubai, nos Emirados Árabes, o levou a rescindir o contrato com a equipe paulista. Após três meses de experiência, o contrato foi rompido.

Giba vôlei (Foto: Danielle Rocha)
Giba quer iniciar uma nova fase tão 
vitoriosa quanto a que teve nas quadras 
(Foto: Danielle Rocha)

- Acabei supertranquilo. Ali (em Taubaté) já tinha resolvido parar. Aí veio a proposta de Dubai. Resolvi jogar mais um ano. Condição física eu tinha, estava saltando bem de novo e com bom aproveitamento no ataque. Fiz 11 jogos lá, mas a cultura era diferente e não deu certo. Hoje acho que o que tinha que fazer eu fiz. É melhor você parar do que pararem você. Não sinto falta de nada. Nada mesmo. Acabei bem resolvido, feliz com que fiz. Uma hora tem que acabar... É complicado (se emociona). Não tem como descrever o que está passando dentro de mim. Só quero agradecer às pessoas que me ajudaram, que estiveram ou estão ao meu lado. E que me desculpem alguma coisa que eu tenha errado. A sensação é de dever cumprido. De saber que dei o meu máximo em todos os momentos. Fui um jogador bom, não me considero o melhor. Um jogador que fez parte de uma geração maravilhosa. Vai ser difícil um outro time bater o que a gente fez em 12 anos. O conjunto fez o melhor time. Eu fui uma peça dentro da engrenagem  - disse o campeão olímpico em 2004 e mundial em 2002, 2006 e 2010.

Giba vôlei (Foto: Danielle Rocha)Giba se emocionou várias vezes durante o anúncio da despedida (Foto: Danielle Rocha)

Giba garante que faria tudo igual. De erros a acertos. Aprendeu com todos e pôde corrigir rumos. Um deles foi voltar a falar com o levantador Ricardinho, com quem dividiu quarto por 11 anos nos tempos de seleção. Foram cinco anos afastados até a reaproximação. Juntos novamente, conquistaram a medalha de prata nos Jogos de Londres 2012. Desde então, aprendeu a acompanhar a equipe nacional apenas como espectador.

Vez ou outra, volta a dar suas cortadas numa rede na Praia do Pepê. Joga com anônimos e se diverte com suas reações ao vê-lo ali, dividindo a quadra com eles.

- Agora jogo só na "rataria", sem regras. Outro dia fui com meu sogro à praia, e ele foi lá na rede perguntar se podia jogar. E aí o chamaram, e ele disse que tinha mais um. Levantei e fui até lá. O pessoal olhou e falou: "Você está de sacanagem, né?" É engraçado ver essa resposta do público de diferentes idades. Teve uma vez que um senhor me abordou, e eu fui me levantar para falar com ele. Eu disse que era um prazer conhecê-lo, e ele me falou que eu já era íntimo dele: "Sabe quantas vezes você entrou na minha casa de madrugada?" (risos)  Eu me sinto lisonjeado por ter recebido isso da vida.

Confira abaixo o restante da entrevista:

Vôlei Brasil 2004 (Foto: Agência O globo)
Giba com seus companheiros de seleção 
no pódio de Atenas 2004 
(Foto: Agência O globo)


Do que você vai sentir saudade?
Das pessoas, dos amigos que fiz, das línguas que aprendi, dos lugares que conheci. Não é qualquer um que vai 16 vezes ao Japão. Nós criamos uma família na seleção. Peguei as filhas do Ricardinho no colo e agora a mais velha já tem 16 anos. Ricardo, desculpa se ficou alguma mágoa. Espero que a gente continue essa amizade. Eu e Serginho íamos parar com a seleção depois de Pequim. Mas o Bernardo pediu para que fizéssemos um esforço para poder ajudar a preparar a nova geração. Aceitamos o desafio e ficamos até Londres. Mas agora eu preciso estudar, pensar no que fazer. Estou próximo dos 40. É uma nova fase. 


Giba vôlei (Foto: Danielle Rocha)Giba e suas três medalhas olímpicas
(Foto: Danielle Rocha)


Trabalhar com gestão esportiva segue nos seus planos?
Acho interessante. Tenho experiência dentro de quadra, mas posso fazer a quadra melhor agora do lado de fora. Estou voltando a estudar, fazendo os cursos do Comitê Olímpico Brasileiro. Tenho projetos, dou palestras.



Não pensa em ser técnico? 
Não quero. Mas nunca diga nunca... Acho que aí estaria voltando a fazer o que sempre fiz. Vai acabar sendo a mesma coisa. E eu quero novas experiências. Se você não estimula o cérebro, fica burro. E quando a gente é atleta não pensa em nada. As pessoas te falam a hora de acordar, de dormir, que roupa vestir. A geração da gente foi muito legal. Nalbert, Gustavo, André Heller... A gente levava livros para as viagens e trocava. Queria conhecer coisas novas. 



Você continua sendo uma referência muito forte na atual seleção. Sempre acaba sendo citado por um ex-companheiro ou pelo Bernardinho. Esperava por isso?
Nunca conquistei prêmios individuais porque queria ganhar. O importante sempre foi a medalha. Sei que influenciei, que fui um espelho para muita gente. Não só no vôlei. Conheci um menino em Recife e entreguei uma bola para ele. Aí ele perguntou o meu nome. Eu disse que era Giba. Ele perguntou de novo o nome de verdade. Eu falei que era Gilberto. Ele me falou assim: "Eu também sou Gilberto, tenho o mesmo problema que você teve (leucemia), vou me curar e te achar para contar. Dois anos depois, ele fez 2.000km para falar comigo em Brasília. Quando o vi descendo a escada com a mãe não consegui treinar. Lembro que ele falou: "Não disse que ia me curar?" Teve também uma menina que me abraçou num aeroporto e disse que a avó e a mãe tinham morrido e que ela se apegou a mim para não se matar. Sei que ajudei muita gente a se superar, como eu também fiz na minha vida.


Giba e Bruninho, Vôlei (Foto: Agência Reuters)Giba e Bruninho no pódio das Olimpíadas de Londres (Foto: Agência Reuters)


Bruninho diz que a final olímpica de Londres segue viva na lembrança dele até hoje. Você também relembra aquele  momento?
A única vez que chorei no pódio foi lá. Mas não era porque tínhamos perdido a medalha de ouro, e sim pelos 20 anos que tinha passado defendendo a seleção e ver que aquilo tinha acabado ali. Claro que perder do jeito que perdemos também foi ruim. Mas para mim foi aquela sensação: " E agora?" Acabou tudo". Ele (Bruninho) não. Ele tem mais três Olimpíadas e tempo para chorar só que pela conquista de novos ouros.  



Você acredita que o Brasil tem chances de conquistar o tetracampeonato mundial na Polônia?
Quando estavam disputando a Liga Mundial, e as coisas não estavam saindo do jeito esperado e todo mundo estava criticando eu falei: "Esperem porque eles vão chegar de novo". E foram para a fase final e ficaram com a prata. Estou confiante e acho que vão chegar ao Mundial com muitas chances. A Rússia perdeu o líbero e o oposto. Acho também que nos Jogos eles vão bem. A renovação é natural, e o Bernardo teve essa capacidade de vislumbrar o futuro, levando Sidão, Bruninho, Eder e Murilo para ir treinar com a gente e ganhar experiência. Estamos há quatro ciclos olímpicos no pódio. Confio muito nesse grupo.



Seus filhos jogam vôlei?
Não (risos). Ela faz atletismo, ele gosta de judô. Para Nicoll, o vôlei foi o que tirou o pai dela de casa. Diz que não quer por isso. Ela tem 10 anos e é ciumenta. Vai ao shopping e fala que hoje o pai é dela, que ninguém vai parar para tirar foto comigo. Patrick é moleque. Está com 6 anos e gosta de futebol e judô. Os dois praticam muito esporte. 


vôlei Giba olimpíadas (Foto: Getty Images)
Giba durante as Olimpíadas de Londres 
(Foto: Getty Images)


O que foi mais sofrido durante toda a carreira?
Nicoll e Patrick são os meus tesouros. Quando eles nasceram foi bem difícil. Eu viajava muito. Lembro que estava na Coreia, e ela não queria falar comigo pelo computador porque eu estava há 25 dias fora de casa. Ela então olhou para tela e disse: "Oi, papai. Não me obrigue mais a falar com você pelo computador porque eu sinto saudade." (chora) Doeu não ver essa parte do crescimento dela. Patrick também é maravilhoso e reclamava, pedia que eu não viajasse de novo. Ela nasceu quando eu estava nas Olimpíadas de Atenas. E ele, depois das de Pequim. Nicoll sempre brinca: A minha medalha é de ouro, a sua é de prata".


Giba Dança dos famosos (Foto: Instagram)Giba durante ensaio para o quadro Dança dos Famosos (Foto: Instagram)


O espírito competitivo do ex-atleta vai estar na Dança dos Famosos?
Não gosto de perder nem em par ou ímpar (risos). Os outros participantes são fortes, mas estou me esforçando. Não sabia dançar, não. Estamos ensaiando duas horas por dia e chego em casa cheio de dores. Vamos ver a partir de domingo como vai ser (risos). Acho que fui bem. Camila, a bailarina que é minha professora, é muito boa e já deu para aprender bastante. 



principais títulos da carreira
3 medalhas olímpicas (ouro em Atenas 2004, prata em Pequim 2008 e Londres 2012)
3 ouros em Mundiais
3 Copas dos Campeões
2 Copas do Mundo
1 Pan-Americano
8 Sul-Americanos 

                                                                                                                  Integrante do Hall da Fama do Vôlei 

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