quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Doble chapa: de gols à briga, Grêmio revê parte de sua história no Uruguai

Tricolor estreia na Libertadores com Nacional, com quem reserva íntima relação. Desde aos menos 1916, uruguaios atuam e fazem a diferença no clube gaúcho

Por Direto de Montevidéu

grêmio nacional 1954 olímpico (Foto: Reprodução)Grêmio posa com bandeira do Nacional antes doamistoso que inaugurou Olímpico (Foto: 
Reprodução)
 
Talvez bastassem simbolismos como uma camiseta celeste e o orgulho de adaptar o Maracanazo ao calar o estádio na final da Copa do Brasil de 1997, quase 50 anos depois do feito original, para notar a fascinação e a identificação do torcedor gremista com a cultura do futebol uruguaio. Que tende a ir muito além disso. É quase como um casamento oficial, de papel passado e tudo. Até porque, como todo matrimônio, já houve briga séria entre esses "hermanos" unidos pela bola.

Ao estrear na Libertadores pela 15ª vez diante do Nacional-URU às 22h15m desta quinta-feira no Parque Central, o Grêmio, além de deflagrar o sonho do tri, reabre infindáveis janelas da linha do tempo de sua história. Com o próprio Nacional e o povo charrua. Que faz do Tricolor um gaúcho de DNA híbrido. Um legítimo "doble chapa".


amistosos inesquecíveis
A sessão nostalgia foi aberta esta semana pelos próprios clubes, por meio do Twitter oficial de ambos. Trocaram mensagens de respeito, com fotos da inauguração do Olímpico, em 19 de setembro de 1954. O amistoso entre as equipes terminou 2 a 0 para o Grêmio, gols do centroavante Vitor. Mas os sentimentos no futebol são voláteis. Da cortesia ao ódio bastou um passo. O árbitro Arthur Vilarinho apitou o final de jogo, um dos uruguaios saiu em desabalada corrida atrás de Orli. O defensor usou a sua boa força física e velocidade e conseguiu adentrar no vestiário tricolor. Saiu ileso.

grêmio inauguração olímpico 1954 grêmio nacional briga (Foto: Divulgação/Memorial Herminio Bittencourt) 
Confusão generalizada no amistoso inaugural do 
Olímpico (Foto: Divulgação/Memorial 
Herminio Bittencourt)

O mesmo não vale para o Nacional, que, anos antes, sofreria derrota para o Grêmio no Estádio Centenário. Um feito histórico para os azuis de Porto Alegre na noite de 14 de maio de 1949. Pentacampeão uruguaio, o Nacional tinha dois jogadores que seriam, no ano seguinte, campeões da Copa do Mundo no Brasil. Tejera  e Gambetta, no entanto, antes do estrelato, viram o Grêmio virar, fora de casa. Castro fez 1 a 0 para os uruguaios. Mas Teotônio, Geada e Alegretti remexeram no placar. A vitória ganhou contornos ainda mais apoteóticos por ser o primeiro transmitido para o Rio Grande do Sul de fora do país - méritos, na ocasião, à Rádio Gaúcha.
primeiro jogo fora no uruguai

O 3 a 1 repercutiu imensamente, a ponto de o Grêmio ser convidado para uma excursão pela América Central. Isso que nem havia sido o primeiro jogo do Tricolor fora do país - embora tenha sido o resultado mais expressivo. A partida pioneira ocorreu, lógico, no Uruguai. Em 1936, batera o Oriental, de Rivera, por 2 a 0. 

grêmio uruguaios 1917 (Foto: Reprodução)Uruguaios formavam quase metade do time que venceu tudo em 1917 (Foto: Reprodução)
 
Essa relação tão profícua ganhou força muito antes. Um dos primeiros registros de uruguaios no Grêmio aponta para 1916, quando a Celeste visitou a Baixada, antiga casa tricolor no bairro Moinhos de Vento. Os gaúchos venceram de virada, no maior triunfo do clube até então. O 2 a 1, no entanto, rendeu outros frutos. Quatro, na verdade.

O centro-médio Julian Bertola se apaixonou pelo Grêmio e, no ano seguinte, voltou para ficar. Trouxe a tiracolo mais três companheiros: o zagueiro Eduardo Garibotti e os atacantes Nicanor Rodriguez e Eduardo Behegaray. Com metade do time com sotaque espanhol, o Grêmio de 1917 foi irresistível. Disputou 18 jogos no ano, com 16 vitórias e dois empates, marcando 117 gols e sofrendo apenas 13.


na defesa: de ancheta a de león
Recorrer a uruguaios para levantar taças não ficou restrito aos primórdios do Grêmio. Em 1971, por exemplo, aportava no Olímpico Atilio Ancheta, escolhido na temporada anterior o melhor zagueiro da Copa de 1970, mais conhecido no Brasil por tentar desesperadamente evitar o gol que Pelé acabou não fazendo, na semifinal. O atual cantor de boleros virou ídolo e levantou o simbólico Gauchão de 1977, que limou oito anos de hegemonia colorada. No gol daquele time... claro, outro uruguaio: Corbo.

hugo de león grêmio adeus, olímpico (Foto: Site oficial do Grêmio)De Léon com a taça do Mundial, em 1983
(Foto: Site oficial do Grêmio)
 
Mas é evocar a figura de Hugo de León para que toda essa história de idas e vindas, derrotas, vitórias e rusgas fazer todo o sentido. O ex-zagueiro é a síntese. Em 1980, com o Nacional, venceu o rival Inter na final da Libertadores. Em 1981, já acertado com o Grêmio, venceu o Mundialito em Montevidéu, sobre o Brasil, que se transformaria naquela aclamada seleção da Copa de 1982. Ao erguer a taça perante uma torcida enlouquecida, mostrou que, por baixo da camisa celeste, vestia o manto do Grêmio, em homenagem ao esforço feito pelo clube para contratá-lo. 

Mal sabia o Grêmio que reverência maior viria com o esforço em campo. Capitão absoluto, líder nato e zagueiro técnico, De León levantou a Libertadores e o Mundial em 1983. Que voltaria a levantar em 1988 pelo Nacional. Agora, em 2014, ambos sem De Léon, querem voltar a sentir essa rara sensação. É hora, portanto, de a amizade dar um tempo. Há uma nova história a ser contada a partir das 22h15m no Parque Central.

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