quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Drogas e medo: entra quem quer no abandonado Estádio Alair Corrêa; veja


Casa da Cabofriense tem portões inoperantes - um deles está no chão - e vira ponto de uso e esconderijo de drogas, relatam funcionários: "Eles se acham poderosos"




Por
Cabo Frio, RJ




Entrelaçados quase como se fossem juntos um sentimento só, o abandono e o medo caminham juntos no Estádio Municipal Alair Corrêa, em Cabo Frio, Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Sede de treinos e jogos da Cabofriense, equipe que disputa a elite do Campeonato Carioca, o Correão acrescentou à sua rotina um clima de insegurança e descaso. Uma breve caminhada por lá é o suficiente para constatar que as queixas feitas por funcionários e vizinhos são pertinentes - a falta de manutenção e o vandalismo são as mais comuns. No entanto, basta uma dose pequena de insistência para que outro problema venha à tona, esse muito mais grave: o estádio que outrora recebeu gigantes do futebol brasileiro agora pode estar sendo usado como local para consumo de drogas.

Um dia desses invadiram o sistema de iluminação do estádio à noite para ligar o refletor para poderem jogar bola. A invasão continua. É só você chegar e vê.
funcionário "x"

Administrado exclusivamente pela prefeitura, o Correão foi fundado em 1985 e atravessa um processo de abandono. O lixo espalhado por todas as partes e o mau cheiro nas arquibancadas e nos bancos de reservas não deixam de ser uma consequência da irrisória fragilidade do local. Qualquer um pode entrar. Sim, sem restrição, constrangimento ou dificuldade. Afinal, dois dos três portões estão desprotegidos - um teve o cadeado arrombado, e o outro foi simplesmente trazido ao chão (acompanhe no vídeo, clicando no LINK da FONTE no final da Postagem abaixo, como é fácil entrar no Correão).


 As cenas de invasão no gramado tornaram-se diárias.

Para falar sem medo, só não se identificando: todas as declarações e histórias recolhidas pelo GloboEsporte.com foram feitas anonimamente com o objetivo de evitar represálias. Apesar do problema corriqueiro e do perigo, o assunto é um tabu para funcionários e jogadores da Cabofriense.
- Todo dia, se você for, principalmente à tarde, tem gente jogando bola no campo. Como se fosse deles mesmo. Um dia desses invadiram o sistema de iluminação do estádio à noite para ligar o refletor para poderem jogar bola. A invasão continua. É só você chegar e vê - relatou o funcionário "x".

polícia no estádio correão, cabo frio (Foto: Juan Andrade/ GloboEsporte.com)
Em dia de jogo, uma viatura fica no estádio. No
 resto da semana, a segurança fica por conta da 
Guarda Municipal, que, por conta das condições 
precárias, vai embora antes do anoitecer 
(Foto: GloboEsporte.com)


Com os portões inoperantes, o número de estranhos perambulando pelo local é grande. O Correão fica no bairro Jardim Caiçara, e uma das saídas dá na Rua Duque de Caxias, cuja fama de ser um ponto do tráfico na região é pública e fala por si só. Funcionários garantem que é rotineiro encontrar entorpecentes entocados no estádio - segundo eles, os refletores e os bueiros são os locais preferidos para os esconderijos.


LEIA TAMBÉM
Com contrato perto do fim, Leandro reforça: "Quero ficar na Cabofriense"
Sem apoio da prefeitura, Cabofriense pode fechar parceria com empresário


A Guarda Municipal de Cabo Frio é a responsável pela segurança no local. Segundo um agente da que prefere não se identificar, há pouco tempo um guarda era destacado para ficar o dia inteiro no Correão, inclusive pernoite. Agora, por conta das condições precárias e falta de segurança, ele vai embora antes do anoitecer.

portão do estádio correão arrombado (Foto: Juan Andrade/ GloboEsporte.com)Cadeado do portão traseiro do estádio teria sido arrombado mais de uma vez (Foto: GloboEsporte.com)


- Mandei um ofício para cada secretaria dizendo que adequasse o espaço dignamente para que os guardas pudessem fazer o seu trabalho. Não posso pegar um guarda e colocar ele em qualquer lugar, de qualquer forma - explicou Renato Viana, secretário de Ordem Pública de Cabo Frio. Ele ainda informou que o profissional da segurança fica lá até aproximadamente 19h, mas um guarda entrevistado pelo GloboEsporte.com deu outra versão em relação ao horário:

- Tinha agente no local a noite toda. Entrava com o carro, guardava, passava a noite. Mas, depois que estouraram o cadeado, a direção da guarda falou para que cinco horas, depois do expediente, não ficar mais ninguém não.

À prefeitura, foi perguntado por e-mail "por que o estádio encontrava-se abandonado?" e se "há alguma proposta de reforma ou melhoria na pauta?" Mais de uma semana antes da publicação desta reportagem, mas não houve resposta.

À VONTADE

Mosaico Estádio Correão, em Cabo Frio (Foto: Globoesporte.com)Momentos antes do jogo começar, indivíduos invadem o estádio normalmente, fumam, jogam conversa fora e vão embora (Foto: GloboEsporte.com)


No último dia 28 de outubro, a equipe de reportagem do GloboEsporte.com foi ao Estádio Municipal Alair Corrêa acompanhar a partida entre Cabofriense e Portuguesa-RJ, válida pela última rodada da primeira fase da Copa Rio. Duas horas antes de rolar a bola, cinco indivíduos não fizeram a menor cerimônia e entraram pelo portão traseiro (o que teria o cadeado arrombado). Com uma bola na mão, duas crianças começaram a bater bola no gramado, como se fosse uma prévia do jogo.

Ao lado de uma ambulância e de uma equipe de enfermeiros que estavam à disposição do confronto, ficaram ali por pelo menos uma hora, à vontade. Em meio aos tragos de cigarros, sequer foram incomodadas por alguém. O cheiro de maconha impregnado atrás de umas das balizas era forte, mesmo pouco tempo depois. Apenas momentos antes de Cabofriense e Lusa começarem a jogar foi que eles deixaram o estádio.

- A gente fica com temor, né, até porque temos família, temos filhos. Não adianta brigar, eles não vão te ouvir mesmo, quer queira ou não. Eles se acham poderosos. Ficamos com medo de qualquer coisa que possa complicar a gente, a família da gente. É desagradável trabalhar com bandido e traficante dentro do campo, com arma na mão, escondendo maconha dentro do campo, nos postes, em bueiros de água. É difícil demais - disse, por sua vez, o funcionário "y".

Logo depois da saída do grupo, uma viatura da Polícia Militar escalada para fazer a segurança da partida chegou e se instalou no portão lateral (o que foi derrubado). E por lá ficou até o fim do jogo, sem mais problemas aparentes.

Por telefone, o tenente-coronel Ruy França, comandante do 25° BPM de Cabo Frio, se disse surpreso com a notícia. No entanto, ele reconheceu a "região complicada" em que se encontra o estádio e garantiu que vai tomar providências.

- Ninguém me passou nada sobre essa situação no estádio. Não fomos informados sobre isso. Mas sabemos que as ruas de acesso têm situações complicadas. Estamos sempre monitorando porque sabemos que é uma região complicada, isso não é novidade para ninguém. Mas vamos continuar monitorando e vamos procurar mais detalhes sobre essa situação, que para nós é uma novidade. A administração do Correão é da prefeitura. Então, nós vamos entrar em contato com as outras autoridades da cidade para saber o que está acontecendo, para sabermos mais detalhes e para eliminarmos isso. Pois uma situação como essa, se for confirmada, não pode acontecer - afirmou.

O número destinado a denúncias, nesse caso, é o 22 2643-0190.


"CADA UM FICA NA SUA"

De acordo com jogadores e funcionários da Cabofriense, o cúmulo aconteceu durante um treinamento realizado nas vésperas do confronto contra o Nova Iguaçu, válido pelo returno da primeira fase da Copa Rio. Enquanto a equipe realizava uma atividade no gramado, indivíduos supostamente armados entraram no estádio e passaram a dividir as atenções do elenco.

- Isso aí a gente acompanhou, foi em um momento de trabalho nosso. Algumas pessoas envolvidas com a vida do crime, ou alguma coisa assim, que estavam armadas. Aí, durante o treino, a gente evitava até chegar de perto de lá, porque uma parte do campo fica bem perto. Dá um certo medo na gente, fazendo nosso trabalho, e as coisas acontecendo do lado de fora, mas cada um fica na sua - disse um atleta, o único que falou sobre o assunto. - É uma coisa que a gente acompanha frequentemente, o uso de drogas e de armamentos.

abandono do estádio correão, cabo frio (Foto: Juan Andrade/ GloboEsporte.com)
Muito lixo e vandalismo mancham a imagem 
do maior estádio de Cabo Frio (Fotos: 
GloboEsporte.com)


Líder da torcida organizada Movimento Único Povão, a única da Cabofriense, Felipe Chacau comprou briga com a Prefeitura de Cabo Frio no que diz respeito à situação do Correão há alguns anos. Seja com correntes em redes sociais ou protestos em dia de jogo, ele cobra melhorias e questiona o abandono do estádio, o maior do município.

É uma coisa que a gente acompanha frequentemente, o uso de drogas e de armamentos.
jogador da Cabofriense

- A situação aqui está de mal a pior, entende. Como torcedor organizado, fico indignado com o pouco caso feito, com um time da elite do Carioca, de expressão de Cabo Frio, pioneiro no futebol da Região dos Lagos, semifinalista do estadual em 2014. A situação do clube não anda nada boa, mas a do estádio anda ainda pior. Só 520 pessoas que podem entrar, não recebe times grandes. Jogamos a Copa Rio para pode ganhar uma vaga na Copa do Brasil. Mas eu te pergunto, para que Copa do Brasil se for pegar um São Paulo, um Corinthians e a gente não pode jogar aqui e ter que levar (o jogo) para Macaé? O negócio está largado aí. O único campo profissional da cidade tem qualquer tipo de evento, qualquer marcação de pelada, está largado - esbravejou.

De fato, o estádio não recebe uma partida de apelo há tempos. A última vez foi em 2009, quando a Cabofriense foi derrotada por 4 a 0 pelo Botafogo, pela Taça Rio - na época, arquibancadas provisórias foram instaladas para suportar o público. De lá para cá, a prefeitura não conseguiu mais obter os laudos necessários, e a capacidade tem sido de pouco mais de 500 torcedores desde então. Segundo o site da federação, a capacidade máxima do Correão é de 10 mil pessoas.

No ano passado, o poder público investiu R$ 600 mil em obras no estádio com o propósito maior de receber os jogos contra os chamados grandes pelo estadual. No entanto, o Corpo de Bombeiros enxergou falhas no sistema de combate a incêndio, e o local permaneceu com capacidade mínima. O prefeito Alair Corrêa, inclusive, reconheceu que o esforço acabou sendo em vão. Eliminada precocemente da Copa Rio, a Cabofriense encerrou as atividades da temporada e ainda não definiu uma data para reapresentação.


FONTE:
http://globoesporte.globo.com/rj/serra-lagos-norte/noticia/2015/11/drogas-e-medo-entra-quem-quer-no-abandonado-estadio-alair-correa-veja.html

Nenhum comentário: