quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Londres, dia 13: quando detalhes são coisas muito grandes para esquecer


Brasil perde ouro no vôlei de praia e deixa de ganhar medalha no taekwondo por detalhes. Bolt vence mais uma e avisa: ‘Sou uma lenda’

Por Alexandre Alliatti Rio de Janeiro

Alison e Emanuel medalha de prata vôlei de praia olimpíadas 2012 (Foto: Reuters)Alison e Emanuel exibem medalha de prata em
Londres (Foto: Reuters)

Detalhes tão pequenos, avisou Roberto Carlos (o cantor, não o ex-lateral-esquerdo), são coisas muito grandes para esquecer. Ô, se são. A matemática, essa traiçoeira, gosta de mostrar seu valor em Olimpíadas: um pedaço de centímetro aqui, uma fatia de segundo ali, uma bobagenzinha de nada acolá. E assim, num piscar de olhos, lá se vai uma medalha. Que o diga o brasileiro Diogo Silva, quarto colocado no taekwondo. Que o digam Alison e Emanuel, medalha de prata no vôlei de praia.

Há detalhes que valem quatro anos. Para o bem e para o mal. Nesta quinta-feira, foi para o mal – pensando no nosso umbigo brasileiro, claro. Pequenos detalhes tiraram Diogo Silva primeiro da final, depois do pódio. Pequenos detalhes transformaram em prata o ouro que parecia reluzir para Alison e Emanuel. Quase.

Mas também há detalhes que são grandes demais para esconder. Usain Bolt voltou a ganhar. Com tempo de sobra. Já era bicampeão nos 100m, e agora é nos 200m. E a seleção feminina de vôlei também escancarou superioridade. Encontrou espaço para dar, vender e emprestar na quadra adversária: 3 sets a 0 sobre o Japão e vaga na final.

Bolt, 200 m (Foto: Agência Reuters)Bolt pede silêncio no instante em que cruza linha de chegada dos 200m (Foto: Agência Reuters)

Por segundos

Diogo Silva golpe final Jogos de Londres (Foto: Alberto Pizzoli/AFP)No último segundo, Diogo Silva leva golpe de
americano e perde bronze (Foto: Alberto Pizzoli/AFP)

Nos três minutos de cada round, um segundo pode valer uma eternidade. Diogo Silva dorme nesta quinta-feira sabendo disso melhor do que ninguém. Ao chegar às semifinais do taekwondo e encarar o iraniano Mohammed Bagheri Motamed, vice-campeão mundial, ele teve que congelar os ponteiros para, nos instantes finais, faltando três segundos, encaixar um golpe surreal, coisa de filme de artes marciais, e empatar a batalha em 5 a 5 – ele perdia por 5 a 1, e o golpe rodado na cabeça do adversário valeu quatro pontos. Foi por muito pouco, no detalhe, que ele conseguiu levar a disputa ao golden score, uma espécie de prorrogação.

Nela, os detalhes voltaram a prevalecer. Nenhum dos atletas pontuou. A decisão caiu no colo da subjetividade dos árbitros. Eles teriam que analisar os prós e contras de cada um e indicar quem merecia vaga na final. E optaram pelo iraniano. Uma injustiça, na visão do brasileiro, que adotou uma espécie de protesto sócio-político para questionar a decisão.

- O Irã dá até petróleo para ele (Motamed). Estamos falando de astro, como Kobe Bryant, LeBron James. Toda fonte de recursos de lá vai para o taekwondo. Lutei contra o Neymar, praticamente. Foi o árbitro que tomou a decisão. Não perdi a luta. Numa semifinal de Jogos Olímpicos, seria melhor o árbitro rever, analisar melhor e não tomar a decisão com emoção. (…) Estamos falando de astros e operários. Eu sou operário. Ele tem investimento comparável a Michael Phelps, a LeBron James. Eu tenho investimento comparável a atleta de categoria de base. Talvez um dia poderemos competir de astro para astro.

Restou a luta pelo bronze para Diogo. E detalhes que sequer podem ser contados em um piscar de olhos foram decisivos. O brasileiro acertou um golpe no americano Terrence Jennings quando a luta se encaminhava para o final, novamente com empate. Era esperar o golden score mais uma vez. Ou não. Faltando menos de um segundo, o adversário atingiu a cabeça do paulista. 

Repitamos: faltava menos de um segundo. Foi no exato instante em que o cronômetro migrou do um para o zero. Naquele triz, Diogo perdeu a medalha.

Diogo silva disputa Bronze, taekwondo londres 2012 (Foto: Agência AFP)Brasileiro voa contra americano e consegue empate, mas perde por detalhe (Foto: Agência AFP)

Chateado, mas orgulhoso, o brasileiro encerrou sua participação com o quarto lugar. E com mais um desabafo.

- Eu tenho quase certeza de que o placar tinha zerado (antes do golpe final). Eu não vi a luta em câmera lenta, mas eu tenho certeza que o placar tinha zerado. Os pontos só podem ser dados ao final do primeiro e do segundo round, é uma regra mundial. Eles mudaram só para os Jogos Olímpicos. Eu acho que você tem que ter poder político. Nosso esporte não tem poder político. As decisões são tomadas por membros do comitê internacional e pela federação internacional. O Brasil não tem nenhuma pessoa lá, não temos nenhum árbitro internacional, nenhum manager – disse ele ao SporTV.

O ouro ficou com o turco Servet Tazeguil. Mohammed Bagheri Motamed levou a prata.
Por centímetros

Alison e Emanuel vôlei de praia olimpíadas 2012 (Foto: Getty Images)Alison e Emanuel não conseguem superar força
da dupla alemã (Foto: Getty Images)

Alguém teria que vencer. E vencer por detalhes, por muito pouco, por centímetros. Alison e Emanuel deram provas, ao longo dos Jogos, de que eram uma dupla muito, muito, muito forte. Mas os alemães Brink e Reckermann, campeões mundiais em 2009, ofereceram os mesmos avisos. Por exemplo: eliminaram Ricardo e Pedro Cunha nas quartas de final.

Foi tão equilibrado quanto poderia ser. No primeiro set, vitória dos alemães – 23/21; no segundo, troco dos brasileiros – 21/16. Tie-break. E um sofrimento danado…

Alison e Emanuel começaram melhor o set final. Mas os adversários reagiram. E abriram vantagem. Tudo parecia perdido quando eles alcançaram 14 a 11. Mas a dupla brasileira salvou o primeiro match-point. E o segundo. E o terceiro. Incrível: 14 a 14.

Quando bateu o otimismo, veio a queda. Os dois pontos seguintes foram dos alemães. O último foi um ataque para fora de Emanuel. Por centímetros. Por detalhes. Enquanto os alemães comemoravam, eufóricos, os brasileiros olhavam para a marca da bola na areia, alegando que tinha sido dentro. Mas não foi. Por alguns grãos, não foi.
Por uma eternidade

Bolt 200m máquina fotográfica (Foto: Reuters)Bolt pega máquina de fotógrafo e faz imagens de
Blake após ganhar outro ouro (Foto: Reuters)

Usain Bolt sobra. Mesmo nesta quinta-feira, quando mais pareceu ameaçado, o jamaicano teve tempo de brincar. Cruzou a linha dos 200m com o indicador na frente da boca, como se pedisse silêncio ao estádio. É a quinta medalha olímpica dele: duas nos 100m, duas nos 200m, outra nos 4x100m.
Bolt é o primeiro homem na história a conquistar dois títulos seguidos nos 100m e nos 200m. Não ter quebrado os recordes mundial e olímpico não é grande problema: as marcas anteriores são dele mesmo. O fenômeno venceu com 19s32. E viu dois compatriotas chegarem pouco depois dele. Seu maior concorrente, Yohan Blake, ficou com a prata, com 19s44. Warren Weir foi bronze, com 19s84.
No sábado, Bolt buscará seu sexto ouro – o terceiro em Londres. Mas a vitória nos 4x100m será apenas enfeite. Ele já conseguiu o que queria, como disse depois de fazer flexões, brincar com o público e tirar fotos de Blake com uma máquina tomada emprestada de um jornalista:

- Agora eu sou uma lenda.

Por uma imensidão

Vôlei Feminino, Brasil x Japão (Foto: Agência Reuters)Brasil faz grande partida e supera Japão por 3 a 0
(Foto: Agência Reuters)

É bem verdade que a vitória histórica sobre a Rússia nas quartas de final, depois de salvar seis match-points, havia dado moral às brasileiras. Mas soaria otimismo exagerado esperar uma vitória tão fácil sobre o Japão. Sheilla, Jaqueline, Dani Lins e sua turma passearam nas semifinais: 3 sets a 0.

Venceram por uma imensidão. As parciais escancaram a superioridade: 25/18, 25/15, 25/18. Fabiana e Sheilla foram as maiores pontuadoras da partida – 13 cada, seguidas por Thaisa, com 12, quatro deles de bloqueio.

A final será sábado. E contra o osso mais duro de roer. Os Estados Unidos chegaram lá ao fazer 3 sets a 0 na Coreia do Sul – parciais de 25/20, 25/22 e 25/22. Hooker, a craque do time, fez 24 pontos. Quase um set inteiro…
Resultados dos brasileiros

poliana okimoto maratona aquática londres 2012 (Foto: Satiro Sodré / Agif)Poliana Okimoto tem hipotermia e não completa prova da maratona aquática (Foto: Satiro Sodré / Agif)

Poliana Okimoto chegou a Londres como candidata a figurar no pódio da maratona aquática. Mas parou em uma adversária sempre temida por ela: a hipotermia (quando a temperatura do corpo fica abaixo de 35 graus). Na quinta das seis voltas, a brasileira desistiu. Ao sair do lago, a atleta teve um desmaio e foi levada de cadeira de rodas para o centro médico. Ela passa bem.
No atletismo, o Brasil avançou à final dos 4x100m para mulheres. A equipe verde-amarela, formada por Ana Cláudia Silva, Franciela Krasucki, Evelyn Carolina e Rosângela Santos, terminou em quarto na primeira bateria e avançou para a decisão com o sexto melhor tempo do dia - 42s55. As mais rápidas foram as americanas, com 41s64.

No decatlo, Luiz Alberto de Araújo não teve bom desempenho nas três provas que disputou na manhã desta quinta-feira e caiu para a 17ª colocação geral. Ao fim do dia, perdeu mais um pouco de espaço e encerrou sua participação em 19º. O ouro foi para o americano Ashton Eaton.
O dia também apresentou brasileiros na canoagem. Erlon Silva e Ronilson Oliveira disputaram a final B da categoria C2 (canoa para duas pessoas) de 1.000m, ficaram em segundo e, assim, fecharam sua participação nos Jogos de Londres com a décima colocação.
O país do futebol (feminino)

Carli Lloyd, EUA x Japão, Futebol Masculino (Foto: Agência Reuters)Carli Lloyd faz dois gols e dá medalha de ouro aos
EUA no futebol (Foto: Agência Reuters)

Os Estados Unidos são o país do futebol. Do futebol feminino. As americanas conquistaram nesta quinta-feira seu quarto título olímpico, o terceiro consecutivo. Elas garantiram o ouro ao bater o Japão por 2 a 1. A camisa 10 Lloyd fez os dois gols da conquista. Ogimi descontou. O bronze ficou com o Canadá.

A potência olímpica também está na final do basquete feminino. Favoritas ao título, as americanas bateram a Austrália por 86 a 73 e agora pegam a França, que fez 81 a 64 na Rússia. A decisão será no sábado.

No handebol, a Noruega, algoz do Brasil nas quartas de final, bateu a Coreia do Sul por 31 a 25 e garantiu vaga na final. As atuais campeãs olímpicas e mundiais defenderão seu reinado contra Montenegro, que bateu a Espanha por 27 a 26. O ouro será decidido no sábado.

atletismo Ofentse Mogawane áfrica do sul 4x400m londres 2012 (Foto: Agência Getty Images)Ofentse Mogawane é atendido após queda
(Foto: Agência Getty Images)

O atletismo, além do passeio de Bolt, teve dois momentos marcantes. No revezamento 4x400m, a África do Sul ganhou lugar na final graças ao tapetão. A equipe africana havia sido eliminada na classificatória, por causa de um tropeço de Ofentse Mogawane. Ele deixou o bastão cair e não teve como passá-lo para Oscar Pistorius, o atleta que corre com próteses. Mas os sul-africanos entraram com recurso, e foi observado que Mogawane caiu porque foi empurrado pelo queniano Vincent Kiliu. Com isso, a final da prova, nesta sexta-feira, terá nove equipes.

Nos 800m, o queniano David Rudisha se superou. Com 1m40s91, conquistou o ouro e bateu sua marca anterior, o ex-recorde mundial, que era de 1m41s01. Campeão do mundo nos 800m, o atleta de 23 anos é filho de Daniel Rudisha, um corredor de 400m que levou a medalha de prata nos Jogos de 1968, na Cidade do México.

Foi um ouro batizado por um padre. Rudisha despertou a atenção do religioso irlandês Colm O´Connell quando tinha 14 anos e participava de uma competição escolar de 200m. O garoto, saído de uma tribo em que as pessoas vivem em pequenas cabanas feitas de esterco de vaca e estacas de madeira, foi convidado pelo padre a participar de um treinamento especial em um dos 120 campings criados por ele no Quênia. Não poderia ter dado mais certo.

David Rudisha cravou 1m40s91 e bateu o próprio recorde (Foto: Reuters)David Rudisha crava 1m40s91 e bate o próprio recorde em Londres (Foto: Reuters)

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