terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A capa da IstoÉ e a pós-morte do falecido jornalismo, por Fábio de Oliveira Ribeiro



FONTE:
http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/a-capa-da-istoe-e-a-pos-morte-do-falecido-jornalismo-por-fabio-de-oliveira-ribeiro



FÁBIO DE OLIVEIRA RIBEIRO




por Fábio de Oliveira Ribeiro
As reações à capa da Istoé mostrando o cidadão que teria entregado uma mala de dinheiro ao Lula oscilaram entre a seriedadea ironia e o sarcasmo. Além de ser especialista em mosquitos do PT, o autor da denúncia contra Lula também tem capivara criminal.
Não demorou muito para esta fake news começar a ser desmontada. Todavia, como material de propaganda anti-petista a denúncia de que Lula recebeu uma mala de dinheiro continuará a fazer sucesso nos blogs de direita e nas comunidades de extrema direita onde a fake news da Istoé continua sendo divulgada como se fosse verdade.
Nenhuma novidade. A mala de dinheiro entregue por Davincci Lourenço de Almeida é uma reedição piorada da bolinha de papel que quase matou José Serra (Rede Globo), da Ficha Policial falsificada que poderia ser verdadeira da Dilma Rousseff (Folha de São Paulo) e do triplex que resultou num processo criminal sem pé nem cabeça em que até as testemunhas de acusação inocentam Lula.  
"Na guerra, a verdade é a primeira vítima." disse Ésquilo (525 aC – 456 aC). O dramaturgo grego tinha razão.
A morte do jornalismo é um fato. Mas ela não ocorreu com a mais nova fake news da Istoé. Em 22/05/1998 Nick Cohen escreveu o epitáfio para a falecida notícia no semanário inglês New Statesman:
“Quality journalism is in crisis. The media's obsession with personalities, opinion, light features and lifestyle pieces is killing the art of reporting.” *
Refletindo sobre aquele texto, Cotardo Calligaris escreveu o seguinte na Folha de São Paulo em 12/07/1998:
“Seu diagnóstico, embora se refira à imprensa inglesa, parece valer genericamente para a imprensa européia e americana (norte e sul). Ele afirma e mostra que, desde os anos 50 e 60, as verdadeiras notícias -frutos do trabalho de reportagem e investigação- perderam espaço e valor. Foram e estão sendo substituídas pelas opiniões dos colunistas, pelas indiscrições sobre a vida privada das pessoas célebres e pelo jornalismo de costume. O jornalismo de costume são aquelas matérias, mais ou menos baseadas em questionários ou entrevistas, que anunciam que pegureiros gregos desconhecem enfarte, loiro goza melhor da vida, quem tem dois cachorros casa com dificuldade e por aí vai.”
No Brasil, desde que o PT ganhou sua primeira eleição presidencial as grandes empresas de comunicação resolveram assassinar o jornalismo para poder, mediante a repetição insistente de inverdades, distorções e falsificações, destruir o governo petista. O resultado, porém, não foi grande coisa. Lula conseguiu se reeleger e eleger Dilma Rousseff, que também foi reeleita.
O impedimento mediante fraude de Dilma Rousseff foi uma vitória de Pirro. Afinal, Michel Temer apenas aprofundou a recessão econômica e se torna mais impopular a cada programa social que ele desmantela e a cada direito trabalhista e previdenciário que ele tenta revogar. O saudosismo beneficia Lula, que já desponta como o grande preferido do povo na disputa presidencial de 2018. Os candidatos tucanos, preferidos pelas empresas de comunicação, afundam junto com o usurpador. Aécio Neves apenas esquentou a cama para Jair Bolsonaro, que aparece nas pesquisas com chances reais de disputar a presidência.
Há algo de podre no reino do entretenimento jornalístico. O zumbi que anda por aí como se fosse jornalismo respeitável está começando a morrer uma segunda vez. Ele não consegue ter a credibilidade que gostaria, nem tampouco é capaz de produzir e noticiar fake news que se sustentem por mais de algumas horas. Nesse sentido, levando em conta o que disse Nick Cohen e  Cotardo Calligaris a pós-morte do falecido jornalismo é um fato inexorável. Ele foi estampado na capa da Istoé.

*Tradução: “O jornalismo de qualidade está em crise. A obsessão da imprensa com personalidades, opinião, recursos de estilo e modos de vida está matando a arte da comunicação.”

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