sexta-feira, 15 de junho de 2012

Neta de Carlos Gracie, Barbara descarta vida de lutadora e vira poetisa

Faixa azul de jiu-jítsu, herdeira abandonou faculdade de Educação Física e ideia de ser profissional. Escritora lançará livro com poesias feitas desde 2007

Por GLOBOESPORTE.COM Rio de Janeiro

Conhecida por ser o berço do Brazilian Jiu-Jitsu, a família Gracie não tem talentos apenas no tatame. Há no clã uma mulher de 24 anos que se destaca em um terreno bem diferente. Faixa azul no esporte, Barbara Gracie, neta de Carlos Gracie (considerado o pai do jiu-jítsu brasileiro), abandonou o ambiente competitivo ao qual os familiares estão acostumados e se tornou uma escritora de poesias.

Aos 19 anos, Barbara deu a reviravolta que lhe permitiu entrar no mundo das artes. A carioca, além de praticar o jiu-jítsu, era aluna de Educação Física. Porém, ela viu que faltava algo para ser a atleta campeã que sonhara um dia e abandonou o curso.

- É complexo dizer que teve escolha, quando foi tudo muito natural. Meu avô conseguiu implantar a filosofia dele (de eficiência, paciência e controle), mas atualmente, por conta da massificação, está tudo superficial. Eu sentia falta desses interlocutores e via todo mundo voltado só em treinar e treinar. Aos poucos, fui vendo que ser atleta não era a minha. Eu treino por esporte, sem ter cobrança. Na adolescência eu queria ser algo parecido, mas isso ficou mais distante dentro dos acontecimentos – contou.

Barbara Gracie (Foto: Thiago Correia / Globoesporte.com)Barbara Gracie se divide entre o tatame e os cadernos de poesia (Foto: Thiago Correia / Globoesporte.com)
 
A partir de então, Barbara enxergou na poesia um lugar para extinguir sua angústia. Além dos famosos parentes ligados às lutas, como o irmão Roger Gracie e a prima Kyra Gracie, a poetisa é filha de artistas. O pai é professor de teatro e a mãe, Reila, escreveu a biografia de Carlos Gracie.

- Minha família sempre me deu apoio. Eu respiro arte desde pequena. No momento que o tempo foi passando, as coisas foram ficando mais intensas. Meu padrinho é artista plástico e ele diz que a arte nasce com a pessoa. Acho que são pequenas características que sempre tive que me fazem ter o sucesso que tenho hoje com a arte. Estou feliz com o que estou fazendo – ressaltou.
O jiu-jítsu também é poesia. Quando treino, nada importa. Minha poesia parece muito com minha forma de lutar. Jiu-jítsu é a arte de agir"
Barbara Gracie
 
O misto de emoções que Barbara viveu acaba se transferindo para a poesia. A carioca escreve sobre qualquer assunto, mas gosta de focar em elementos de mitologia e falar sobre crianças e infantilidade. Ela recita seus poemas às terças-feiras no Corujão da Poesia, em Botafogo, no Rio de Janeiro.

- A poesia está na vida e é um olhar das coisas. Não busco excelência na escrita, é algo espontâneo, como Clarice Lispector. Falo do meu momento, do que estou sentindo e sempre escrevo para alguém. É uma necessidade de falar. Ligo o som alto, ponho o fone no ouvido e saio escrevendo, porque senão perco uns quatro poemas.

Barbara lançará no final do ano seu primeiro livro. Intitulado “Pequenos muros de Berlim”, a obra é fruto de trabalhos escritos em três pequenos cadernos durante cinco anos escrevendo.
Poesia no jiu-jítsu

Em sua definição, o termo jiu-jítsu quer dizer arte suave. Longe da ideia de que a modalidade é uma briga, Barbara vê similaridades entre o esporte e a poesia. Segundo ela, muito do seu estilo de lutar pode ser visto na escrita e vice-versa.

Barbara Gracie (Foto: Thiago Correia / Globoesporte.com)Barbara Gracie lançará livro de poesias escritas
desde 2007 (Foto: Thiago Correia/Globoesporte.com)
 
- O jiu-jítsu também é poesia. Quando treino, nada importa. Minha poesia parece muito com minha forma de lutar. Tenho esses mergulhos para a profundidade do ser. Jiu-jitsu é a arte do agir. Vem a intuição, vem a impulsividade, e você faz. O que sair é o que saiu. É o mesmo mecanismo – comparou.

Além disso, o jiu-jítsu causa na poetisa um sentimento de superação. Adotando com afinco a filosofia do avô de ser eficiente, Barbara busca a todo custo vencer o adversário, mesmo não estando na melhor condição física.

- O jiu-jítsu me inspira por me provocar uma certa necessidade de vencer a mim mesma. Sempre tive que lutar com pessoas mais fortes e mais treinadas que eu. É difícil eu treinar todo dia, porque não é meu foco.

Mesmo assim, ela é bastante competitiva quando coloca o quimono. Apesar de não ser atleta profissional, a carioca almeja voos altos no tatame. Há seis anos, Barbara recebeu das mãos do irmão Roger a faixa azul, após passar sete meses treinando com ele em Londres. Para subir na hierarquia da modalidade, ela julga essencial a aprovação fraterna.

- Eu gostaria, quando receber a faixa roxa, que ele me desse uma avaliada e aí sim permitir que a academia me desse. Eu confio no julgamento dele. Sou muito exigente e também não quero ser menos do que posso ser.

Porém, Barbara sabe que subir de faixa é uma responsabilidade grande para quem é membro da família Gracie. Após tanto tempo com a azul na cintura, o desejo é que a cor mude no futuro, com esforço e edicação.

Barbara Gracie (Foto: Thiago Correia/Globoesporte.com)Barbara Gracie com quimono e cadernos de poesia na academia (Foto: Thiago Correia/Globoesporte.com)
 
- A cobrança é muito grande. Eu sou azul há seis anos e sempre quis a roxa. Por eu carregar o sobrenome que carrego, é preciso dar um passo a mais. Não posso ser mediana, senão não me dão a faixa. Eu represento muito mais do que eu mesma – afirmou.

Sonho no teatro
Levando a sério o trabalho de escritora, Barbara não deixa de lado a vontade de ser atriz. A carioca pensa em levar à frente a ideia de atuar em palco. Como demonstra em sua poesia, ela não rejeita possibilidades.
- O teatro sempre foi minha maior paixão. Apesar de fazer poesia, acho que ela é mais uma necessidade, porque nem sempre a gente gosta do que escreve. Com o teatro não, sempre gosto de fazer. É uma redescoberta eterna no palco – finalizou.


FONTE:
http://globoesporte.globo.com/lutas/noticia/2012/06/neta-de-carlos-gracie-barbara-descarta-vida-de-lutadora-e-vira-poetisa.html

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