quarta-feira, 20 de abril de 2011

Meu Jogo Inesquecível: Bangu de Sidney Rezende cala Maracanã em 66

Apresentador recorda de triunfo do Alvirrubro sobre o Flamengo por 3 a 0, na decisão do Carioca. Duelo leva 140 mil torcedores ao estádio

Por Fabrício Costa Rio de Janeiro

Tudo bem que este ano foi de alívio para o Bangu. O clube escapou, e bem, de novo, do rebaixamento para a Série B do Carioca. Mas faz quase meio século que não conquista o Estadual. O último triunfo aconteceu em 1966, quando o time de Moça Bonita venceu o Flamengo na final por 3 a 0. Motivo de descrença no clube? Não para o jornalista Sidney Rezende, da Globonews, que, por causa da paixão clubística, precisa ter espírito esportivo para aturar as piadas de corredor sobre o clube de coração.

- As pessoas simplesmente não acreditam. Sempre me perguntam: "Vem cá, qual é o seu time mesmo?" Para convencê-las, canto as músicas do Bangu. "Carnaval aqui é bom. Sem luxo, sem fita, porque somos Bangu, garotos de Moça Bonita." Todo mundo olha o manto sagrado e fica rindo. Aí, digo: o Bangu é campeão de 33 em 33 anos. Fomos os melhores em 33 e 66. E eu, na minha inocência achei que íamos ser campeões em 99. Não fomos, e a agora temos que esperar 66 anos - brincou o comunicador, com a camisa do centenário do clube nas mãos.
Sidney Resende durante entrevista (Foto: Fabrício Costa / GLOBOESPORTE.COM)Sidney Resende lembra: jogo marcante não foi até o fim (Foto: Fabrício Costa / GLOBOESPORTE.COM)

O apresentador da GloboNews, que posou para fotos tal como o personagem fictício, o jornalista Clark Kent, fazia antes de se transformar em Superman,  conta que torce para o Bangu porque foi o primeiro time que o encantou, além de ser uma forma de se manter apegado às raízes.

- Eu morava em Bangu nessa época, estudava numa escola que lembrava as cores do time e a todo momento ressaltava a importância do clube na região. Sem falar que a minha irmã trabalhava na fábrica de mesmo nome nesse bairro. Tinha vergonha dos coleguinhas do lado, que eram flamenguistas, vascaínos e botafoguenses, mas nunca escondi que era banguense. O Zico foi um dos ícones da minha geração, mas isso não fez com que eu mudasse a minha opção no futebol - recordou o editor-chefe do site SRZD, que tem 52 anos.

Para completar, o jornalista lembra que o Alvirrubro foi campeão estadual justamente quando ele começou a entender de futebol. Além do mais, o comunicador pensava que aquele seria um dos muitos títulos que viriam pela frente. Porém, o duelo, que já era inesquecível, ganhou ares de raridade.

- Em 64 e 65, já tínhamos sido vice-campeões cariocas. E, em 66, o Bangu arrebentou o Flamengo. Foi o que fez eu ser banguense. Trata-se de um duelo histórico. Esse jogo não acabou. Aos 25 minutos do segundo tempo, teve que ser interrompido porque o pau quebrou. Não havia mais jogadores do Flamengo nem do Bangu porque eles foram expulsos. A partida terminou daquela forma depois de o Paulo Borges dar um chapeuzinho no Almir, que partiu para a briga - recordou o comunicador, que acompanhou o duelo com o ouvido colado no rádio.

Título e pancadaria
O Bangu conquistou seu segundo título do Campeonato Carioca em 1966. A campanha da equipe de Moça Bonita foi de dar inveja aos grandes clubes do Rio de Janeiro. Em 18 jogos, 15 vitórias, dois empates e apenas uma derrota, para o Flamengo, no primeiro turno da competição. No dia 18 de dezembro daquele ano, o Maracanã recebeu 140 mil torcedores, sendo que a grande maioria era de rubro-negros ávidos pela comemoração de mais um caneco (assista ao vídeo ao lado da briga generalizada).
Entretanto, foram Ocimar, Aladim e Paulo Borges que balançaram as redes numa vitória por 3 a 0 do Alvirrubro. Não bastasse o resultado surpreendente, o Flamengo teve cinco jogadores expulsos contra quatro do Bangu. Isso porque o árbitro Aírton Vieira de Moraes teve que encerrar a partida aos 25 minutos do segundo tempo, depois de uma briga generalizada. Trinta e três anos depois de seu primeiro triunfo no Carioca em 1933, o Bangu calou uma animada torcida rubro-negra no Maracanã.

Ex-atleta do Bangu
Sidney Rezende  torcedor do Bangu (Foto: Fabricio Costa/Globoesporte.com)Sidney exibe camisa dos 100 anos do Bangu
(Foto: Fabricio Costa/Globoesporte.com)

Ainda na infância, a paixão de Sidney Rezende pelo Bangu se estendeu às piscinas. Ele não só acompanhava os resultados do futebol como passou a representar o clube em torneios.

- Fui da equipe de petizes do Bangu. Minha competição mais emocionante aconteceu nas Laranjeiras. Eram dez nadadores, e eu fiquei em... décimo lugar. Bom o resultado, né? - afirmou, às gargalhadas, para depois revelar que também tirou o último lugar numa exposição de esculturas de areia. De novo, representando o clube de coração.

Eufemismo à parte, o jornalista acha que o Bangu não deve ser considerado "clube pequeno" em relação aos grandes Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo. Ele prefere lançar mão de outra designação para se referir ao Alvirrubro.

- Prefiro dizer que é um time marginalizado, por não ter o porte dos outros. É muito triste você ver a história do Olaria, também no Rio, e do Juventus, em São Paulo, se comparada à situação atual.

Por outro lado, Sidney Rezende garante que nunca tentou fazer com que os seus filhos fossem banguenses.

- Sou um liberal nesse aspecto. Meu irmão mais velho é banguense, mas meus filhos não. Um é flamenguista e a outra não sabe de qual clube gosta mais. Ela já transitou entre Vasco e Fluminense. Não impus. Fica difícil para uma criança chegar à escola e bater no peito "eu torço para o time tal" que não seja um clube grande.

O jornalista só lamenta o fato de não poder acompanhar o Bangu de perto. Ele queria ter ido mais vezes aos jogos do time nos últimos anos. Em função dos compromissos profissionais, teve de colocar esse amor a distância.

- Gostaria de ter ido mais vezes ao estádio. Nos últimos seis ou oito meses, fui só duas vezes. Sou muito bem recebido, independentemente das diretorias que passam por lá. Sempre recebo mensagens e camisetas das torcidas. Outro dia ganhei uma carteirinha de sócio do clube - ponderou.

Com Pelé em Moça Bonita
Sidney Rezende  torcedor do Bangu (Foto: Fabricio Costa/Globoesporte.com)Jornalista é alvo de piadas por torcer para o Bangu
(Foto: Fabricio Costa/Globoesporte.com)

Falando em proximidade e afastamento, Sidney não se esquece de quando viu o Rei Pelé pela primeira vez. Coincidências à parte, a cena aconteceu em Moça Bonita.

- Fui a um treino da Seleção Brasileira contra o Bangu. Meu irmão Renato me levou ao estádio. Para mim, foi extraordinário ver o Pelé de perto. Detalhe: eu só o encontrei novamente em 1994, quando teve a posse do presidente da República. Aparentemente, o Pelé não conhecia ninguém, mas tratou todo mundo com carinho. Ele é um rei na arte da sedução, do charme. Um cara que sabe curtir o seu reinado - elogiou.

Além disso, o apresentador da GloboNews diz que torcer para o Bangu é algo que extrapola a lógica. Logo, o desempenho dentro do campo não influencia tanto na sua escolha.

- Eu me apego à honestidade, à singeleza e aos valores nobres de fato. A torcida fanática por um time grande também é legítima. Mas qual a razão de existir dos clubes marginalizados, ditos pequenos, se não fosse a defesa dos valores, de conceitos? Prefiro pensar que no Bangu sempre tem dois ou três jogadores de qualidade que acabam ganhando projeção. É mais um sentimento de ter morado no bairro, gostar das cores do time e amar a instituição - afirmou.
Não bastasse a admiração pela equipe da Zona Oeste do Rio, ele sonha um dia ser presidente do clube.

- Depois que eu me aposentar, por que não? Encerrada a minha carreira jornalística, já que não dá para conciliar os dois, penso (em administrar o Bangu) numa gestão SA (Sociedade Anônima). Não é motivo para credenciar, mas ter paixão pelo clube ajuda - finalizou.
bangu 3 x 0 flamengo
Ubirajara, Fidélis, Mário Tito, Luís Alberto e Ari Clemente; Jaime e Ocimar; Paulo Borges, Ladeira, Cabralzinho e Aladim Valdomiro; Murilo, Jaime, Itamar e Paulo Henrique; Carlinhos e Nelsinho; Carlos Alberto, Almir, Silva e Oswaldo
Técnico: Alfredo Gonzales Técnico: Armando Renganeschi
Gols: Ocimar (falta) aos 24 e Aladim, aos 27 minutos do 1º tempo. Paulo Borges, aos 3 minutos do 2º tempo
Cartões vermelhos: Ubirajara, Luís Alberto, Ari Clemente e Ladeira (Bangu); Valdomiro, Itamar, Paulo Henrique, Almir e Silva (Flamengo)
Local: Maracanã, Rio de Janeiro  Data: 18/12/1966  Árbitro: Aírton Vieira de Moraes
Público: 140 mil torcedores

FONTE:
http://globoesporte.globo.com/futebol/noticia/2011/04/meu-jogo-inesquecivel-bangu-de-sidney-rezende-cala-maracana-em-66.html

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