Perto de completar um ano à frente do Vasco, técnico acredita estar perto do primeiro título e comemora sucesso do trabalho
Por Gustavo Rotstein
Rio de Janeiro
Cristóvão celebra equilíbrio em meio a turbulências
(Foto: Jorge William / Agência O Globo)
As declarações são fortes. Cristóvão Borges
fala temendo soar como soberba. Mas a maneira serena de se expressar
mostra que tudo não passa de autoconfiança. Perto de completar um ano
como técnico titular do Vasco – após substituir Ricardo Gomes, afastado
em 28 de agosto por problema de saúde –, o baiano de 53 anos tomou gosto
pelo desafio, pela pressão e pelo sucesso. Embora líder de uma campanha
quase impecável no Campeonato Brasileiro, ele ainda não é unanimidade
no clube, principalmente com a torcida. Em sua trajetória, os bons
resultados estão lado a lado com problemas a serem resolvidos.
Cristóvão garante lidar com tudo isso da melhor maneira possível. Mesmo
com a saída quase simultânea de Romulo, Diego Souza, Fagner e Allan,
ele se orgulha de manter o Vasco competitivo e imune ao que define como
“turbulências diárias”. Em pouco tempo como treinador, entendeu que
precisa se alimentar das cobranças e responder a elas com bons
resultados. Até o momento, sua missão é um sucesso.
Em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM, Cristóvão admite que temeu pelo seu
trabalho com a debandada de jogadores no Vasco. Por outro lado, comemora
como um título o que, segundo ele, foram três semanas de provação no
momento seguinte à negociação dos quatro jogadores. Por fim, define o
seu trabalho à frente de um time de grande expressão.
- Treinador deveria se chamar equilibrista - resumiu.
A habilidade mostrada em pouco tempo de carreira dá a Cristóvão a confiança de acreditar que o carimbo de campeão está perto:
- Se não for agora, vai ser daqui a pouco.
GLOBOESPORTE.COM - O Vasco faz uma excelente campanha no
Brasileiro, com sete jogos de invencibilidade e cinco sem sofrer gols,
apesar das recentes perdas de jogadores importantes
. Como foi possível
manter o alto nível?
Cristóvão Borges - Desde o início da temporada venho
buscando o equilíbrio da equipe. Sabia que em algum momento isso
aconteceria. No fim do ano passado nós trocamos alguns jogadores e
chegaram outros com características diferentes. Por isso, o time
precisou ser refeito. O Vasco sempre teve vocação ofensiva, mas agora
tem mais força física. Aliás, a excelente preparação física é a base
dessa reorganização tática. Está ficando do jeito que eu quero.
Que mudanças foram essas?
A Copa Sul-Americana e a Libertadores me confirmaram que havia a
necessidade de aumentar nossa dinâmica e a intensidade do jogo. O grande
alerta foi ver e jogar contra o Universidad de Chile. Falta essa
dinâmica e essa intensidade no futebol brasileiro. Atualmente isso
acontece aqui apenas em jogos pontuais. Estou muito feliz, porque os
resultados vieram e a equipe se mantém sem levar gols. Um grande teste
foi o clássico contra o Botafogo. Foi uma partida de alta intensidade,
como imagino que deva ser o futebol brasileiro. Fomos bem e vencemos uma
grande equipe.
As negociações de Romulo, Allan, Diego Souza e Fagner surpreenderam?
Cristóvão orienta o Vasco: sonho do carimbo de
campeão (Foto: Wallace Teixeira / Agência Estado)
Sabia que as saídas eram inevitáveis. Terminamos a última temporada em
alto nível, tivemos jogadores convocados para a Seleção e fomos para
outro patamar. Eu contava com a saída do Romulo e do Dedé. Em relação ao
Dedé, o que me aliviava era seu desejo de permanecer no Brasil. Mas
tinha certeza de que o Romulo não ficaria. Meus amigos que moram fora do
Brasil só falavam do Romulo. Todo europeu que vinha ver o Vasco jogar
só falava dele.
Chegou a temer pelo futuro do seu trabalho no Vasco quando viu tantos jogadores deixarem o clube quase ao mesmo tempo?
Sabia que teria de achar soluções para as perdas. Desde o início do ano
trabalhei pensando nisso. Mas nesse período me preocupei muito e tive
dúvidas sobre a sequência do trabalho, sim. As últimas três semanas
foram desafiadoras. Poderia acontecer o que aconteceu ou o trabalho
poderia ter sido quebrado. Vínhamos de um jogo contra o Atlético-GO que
foi o pior do Vasco sob o meu comando, apesar da vitória por 1 a 0.
Naquela partida fizemos muitas coisas ruins. Foi assustador, mas serviu
como alerta.
Como é possível manter o Vasco no rumo do sucesso convivendo
com problemas como a desconfiança da torcida e a insatisfação declarada
de jogadores com o banco de reservas?
Minha resposta é estar no Vasco esse tempo todo com um trabalho regular"
Cristóvão Borges
Mesmo com essa boa campanha, vivemos turbulências diárias. Isso não é
fácil. Por isso, vejo a gente sobrevivendo. E qualquer turbulência,
dependendo da administração dela, pode atrapalhar o trabalho. Por
exemplo, nem sei explicar como sobrevivi a essa insistência de Juninho e
Felipe não jogarem juntos. Inflaram algo que é simples de resolver e
durante um tempo isso virou uma verdade. Isso não tem qualquer proveito
para nós, mas tem proveito para as redes sociais e para enquetes. Também
não tenho problemas com a insatisfação de jogadores, mas tem muita
gente que valoriza demais. Nos grandes clubes, qualquer um pode ser
reserva. É normal Juninho, Felipe e Diego Souza não ficarem satisfeitos.
Mas isso acaba virando um monstro e se não for bem administrado, pode
quebrar tudo. Claro que precisa ser noticiado, mas a repercussão acaba
sendo a repercussão, e não o fato. Do jeito que nós sobrevivemos a isso,
podemos fazer coisas boas.
Deve ser complicado em pouco tempo de carreira conseguir trabalhar todas essas situações...
Treinador deveria se chamar equilibrista. Todo dia alguém dá um
beliscão na corda. Mas não reclamo, porque sou treinador do Vasco. Caso
contrário, como diz o Felipão, deveria treinar o Bambala. O pior é
quando você vai para a guerra de revólver. Mas quando você tem uma
artilharia, tudo bem. Eu tenho um grande time. Então, apesar de qualquer
problema, eu levo fé. O diferencial é o grupo de jogadores, que é
sensacional. Tenho apoio e já mostrei que tenho capacidade. Então, estou
pronto.
Por conta de tudo isso, acredita que ainda falta reconhecimento?
Não reclamo de nada. Minha resposta é estar no Vasco esse tempo todo
com um trabalho regular. Acho difícil que haja algum outro time com a
regularidade do Vasco neste período de um ano.
Com 76% de aproveitamento
no Brasileiro, vou reclamar de quê? Mas para mim é pouco. Eu quero
mais. Eu quero muito.
Um título de campeão brasileiro serviria para consolidar sua carreira como treinador?
A carreira precisa de um carimbo de campeão. Estou no caminho. Se não
for agora, vai ser daqui a pouco. Se mantiver esse ritmo, acho que vou
chegar. Mas sei que isso custa, é trabalhoso. É difícil até para os
experientes.
FONTE:
http://globoesporte.globo.com/futebol/times/vasco/noticia/2012/07/turbulencia-diaria-e-sobrevivencia-cristovao-se-define-como-equilibrista.html