sábado, 28 de março de 2015

Música e poesia: receitas de D. Alves contra incertezas no Barça e Seleção

Lateral explica filosofia de vida, fala sobre situação no clube catalão, diz que não tem nenhum pré-contrato com outro time e ataca CBF por processo de "revolução"


Por
Barcelona, Espanha

 

Daniel Alves vive um momento de incertezas, como nunca teve desde que chegou no Barcelona, em 2008. A três meses do final de seu contrato com o clube, e sem receber proposta de renovação, o lateral não sabe se seu futuro será na Espanha ou em qualquer outro lugar. Fora da última convocação de Dunga, ele também não tem noção se sua trajetória na Seleção já chegou ao fim, aos 31 anos de idade. Motivos de sobra para abater um atleta com um currículo vitorioso como tem o baiano - campeão de todos os torneios possíveis na Europa. 

Não acontece. Todo dia de manhã a música "Happy", de Pharrel Willians, toca no celular de Daniel Alves para acordá-lo.


- Eu escolhi esse despertador porque eu sou assim, eu sou feliz, eu vou trabalhar feliz - conta.
Uma rápida passada pelas redes sociais do brasileiro sustenta tudo isso. Alves é um "vividor", como se diz na Espanha. Ele sabe tirar o máximo de cada momento.

Daniel Alves, Barcelona, entrevista (Foto: Divulgação)Daniel Alves diz que tenta viver de forma leve (Foto: Divulgação)


- Acho importante dar um 'stop', praticar hobbies, ler...

As 'multifacetas' no Instagram, do poeta ao músico, fazem parte da filosofia de Daniel Alves: refrescar a mente para, quando trabalhar, fazer mais e melhor. Recentemente elogiado por Luis Enrique como "um dos melhores profissionais" que o técnico já dividiu vestiário, ele usa uma referência da biografia de Michael Jordan para explicar suas ideias: "Quanto mais trabalho, mais tenho sorte".

Dani, inclusive, é um dos responsáveis pela harmonia nos bastidores do time do Barcelona, fazendo a ponte entre mais jovens e experientes, e até técnico e jogadores. Na visão dele, os problemas entre Messi e Luis Enrique no meio da temporada fazem parte de um processo de evolução.


- O Barcelona não é um Picasso não, que você só vai chegar, apreciar e falar 'que p... quadro'. Teve de pintar, dificuldade, escolher tinta, ter a grande inspiração.. Enquanto for conflito para ganhar, é válido. Se não tiver está errado também - diz utilizando mais uma referência artística.

O único assunto que mexe com Daniel Alves é seleção brasileira. Ele mesmo admite e diz não recomendar a sensação para "nenhum ser humano". Só que não demora muito a se recompor também e afirmar que irá voltar a ser chamado e brilhar com a amarelinha. Hoje o lateral enxerga problemas na organização da CBF, acredita que a Alemanha deveria ser utilizada como inspiração e é contra a "revolução" promovida por Dunga.

- Eu vou no slogan da nossa bandeira, é 'Ordem e Progresso'. Revolução não dá estabilidade. A CBF está em desordem e caos - ataca.

Desse mesmo jeitão autêntico, ele explica também o seu momento no Barcelona. O brasileiro tem sido capa dos jornais catalães diariamente. Alguns afirmam que seus agentes estão próximos de fechar um acordo com outro time, mas ele nega tudo.

- Não tenho pré-contrato com ninguém. Decidi que vou viver o meu momento. Quero finalizar este contrato com títulos e um bom saber no boca. O que o futuro me oferecer eu vou aceitar. Estou preparado para o que vier.


Confira a entrevista com Daniel Alves na íntegra:

Você acha que assume muitos riscos em campo e acaba pagando um preço por isso?Eu sou uma pessoa que na minha vida prefiro assumir a responsabilidade antes de um companheiro. No final vai tudo na minha conta. Uma a mais, uma a menos. Se não for na minha conta já me pergunto ' o que está acontecendo aqui '? Põe na minha conta mesmo, se for para um companheiro salvar está valendo. Sou um jogador de grupo. Com muita personalidade. Às vezes, as pessoas gostas e outras odeiam, mas se sair pra tomar um café me amam.


Como sente que está sua imagem no clube? Te estranha estar tão perto do fim do contrato e ainda não ter recebido contato do Barcelona?
Eu acredito que a minha forma de viver é o momento. O momento agora é de falar menos e fazer mais, eu não sou do tipo de jogador que pensa que não tenho que demonstrar nada a ninguém ou alguém. Eu penso que sempre tenho que demonstrar algo a alguém. Ou algo aos meus contratantes, nesse caso ao meu clube. É minha forma de viver, se não pensar assim não tem sentido a vida, ela deixa de ter a chama que te mantém aceso. Eu sempre penso que tenho de demonstrar, é um momento especial para mim. E assim eu estou me preparando, assim eu me cuido, pra que as pessoas, se eu tenha que deixar o clube ou ficar, elas acreditem que tem um 'p...' profissional defendendo suas cores, que é minha forma de encarar a profissão.


Marcelo e Daniel Alves Barcelona x Real Madrid (Foto: AP)
Dani Alves com Marcelo no clássico entre Barça 
e Real: dúvidas sobre reencontro na Seleção 
(Foto: AP)


Você já recebeu elogios raros do Luis Enrique. Como é sua relação com seu técnico hoje?
Ele é um cara que eu acredito que a gente tem um 'feeling' legal porque somos bastante parecidos, em coisas, em sentir e agir, a gente age com naturalidade e espontaneidade. Algumas vezes a gente se equivoca também. Mas eu prefiro me equivocar de algo que fiz do que de algo que eu deixei de fazer. Eu acho que é por isso que a gente se identifica bem. O que me dignifica é o meu trabalho. Eu acordo de manhã, meu despertador é a música Happy, do Pharrel Willians. "Because I'm Happy". Porque eu sou feliz. Eu vou trabalhar assim na felicidade, acredito que a tua volta ela tem de estar recheada da tua melhor energia. Os teus problemas você chega no quarto, pensa sobre eles e tenta buscar a melhor energia para resolvê-los, e não ter que levar seus problemas para as outras pessoas. Pras pessoas você precisa levar energia boa para resolverem os problemas delas. É uma forma que tenho de viver a vida, encarar e passar isso para as pessoas. Não quero ser melhor ou mais importante que ninguém, mas quero levar o meu melhor para as pessoas pra que elas possam pensar que a vida é mais importante que as lamentações.


Os brasileiros parecem ser os mais alegres desse grupo. Como é a vida de vocês no vestiário do Barcelona? (São 5: Dani, Neymar, Adriano, Rafinha e Douglas)
Brasucas ao poder! A gente conseguiu montar uma máfia aí legal. Uma máfia jovem de brasucas. E alguns veteranos também. A gente conseguiu fazer um grupo legal, não existiria um grande grupo sem brasileiros. O brasileiro é o toque especial no ambiente, onde quer que esteja porque a gente tem uma alegria diferente.


Você acredita que esse astral ajudou na mudança da fase do Messi do ano passado para este, e a superar os problemas com o Luis Enrique?
A vida aqui é pior do que com a família. A gente convive mais do que com os próprios familiares. Se com família, que é sangue do sangue, já tem problema, imagina no grupo. Esses problemas são inevitáveis. Mas são problemas porque somos competitivos e queremos ganhar. Quando você quer ganhar você vai conflitar. O Barcelona não é um Picasso não, que você vai chegar, apreciar e falar 'que p. quadro'. Teve que pintar o quadro, teve dificuldade pra pintar, escolher as tintas, ter a grande inspiração. Então isso é normal. Momentos ruins servem pras pessoas valorizarem os momentos bons. Então os momentos que a gente passa de dificuldade, problemas, ele depois vira positivo e a favor. Que é agora, ambiente maravilhoso, as pessoas super leves. Eu acho que sempre que seja conflito pra ganhar é válido. Se não existir não tem sentido nenhum, a gente não quer competir, não quer ganhar. A gente não pode viver com tudo igual. Tudo não dá no mesmo. Tem que ser discutido.


O time está crescendo no momento certo?
Estamos crescendo no momento justo, agora começa a definir as competições, as coisas a se encaminharem. É legal chegar nessa situação com essa motivação, ela sempre te dá um 'upzinho', né. E eu espero que nessa fase final a gente possa dar esse gás necessário pra conseguir os objetivos.


Daniel Alves, Barcelona, entrevista (Foto: Divulgação)Daniel Alves, Barcelona, entrevista (Foto: Divulgação)


Você falou de Picasso, é cheio das referências, de fazer poesia no Instagram. De onde vem toda essa inspiração?
Eu saio escrevendo, mandando rimas, eu gosto de ler bastante e sempre acho que o mundo te dá muitas inspirações, se você prestar atenção. Só que as pessoas estão tão preocupadas com coisas fúteis, quero ter isso, quero ter aquilo, e esquecem de desfrutar do que o mundo tem a nos oferecer. Eu consigo dar esse stop. Chegar em casa e ler um livro e esquecer do mundo, e desfrutar daquele momento. Hoje eu toco violão, aprendi sozinho porque eu acredito que se a gente quer a gente consegue, basta você se dedicar e focar naquilo ali. Difícil é sentar no sofá e falar "ah, não tenho sorte". Uma frase que eu li do Michael Jordan é "Quanto mais trabalho, mais sorte tenho". Fica a dica. As pessoas tem de fazer mais do que falar e se lamentar. Você tem um problema, tem de achar a resolução desse problema. A gente tem que gastar nossa energia com tentar resolver o que não está resolvido. É uma forma diferente. Forma louca de viver minha vida. Eu sempre falo que sou um bom louco, um louco do bem.


O assunto seleção brasileira te abate? Não estar lá mexe contigo?

É inevitável não mexer com você, né. Você vive do futebol. A seleção brasileira é o ápice para um jogador. Você acabar na Seleção, com todas as coisas grandes que você viveu na Seleção, com essa sensação, ela não é legal, não é recomendável para nenhum ser humano. Por isso eu luto continuamente e me preparo quando vou competir no Barcelona, com a esperança de que eu vou voltar à Seleção. Vou voltar à Seleção e vou viver outros grandes momentos.


Por que você acha que não está mais lá?
Eu acho que, como em 2006, com o próprio Dunga, quando deu uma mudada na Seleção, penso que não é a solução. Eu acho que quando você quer melhorar, tem de colocar outras seleções e outras pessoas como exemplo. Exemplo bom. A grande maioria das seleções, tem uma continuidade no seu grupo durante seis, 10 anos, até mais. Você tem de tentar agregar coisas que vão te ajudar isso. Mas eu acho que a revolução não é a solução. A revolução ela sempre vai te dar instabilidade, sempre. Na seleção, nos clubes brasileiros, quando revoluciona, dificilmente você encontra solução. A evolução está em você melhorar a continuidade, desse produto que você tem. A Seleção que nos eliminou da Copa do Mundo estava se preparando há anos com um grande projeto. Eu sempre vou no slogan da nossa bandeira. É ordem e progresso. Se você não tem ordem, você não tem progresso. Se você tem revolução, tem instabilidade.


Você acha que a Seleção está em 'desordem'?
Acredito que sim, mas não é de hoje não. É de muito tempo. Faz muito tempo que ela está em desordem, em um caos. Eu posso estar equivocado no que falo, mas gosto de pagar pelas coisas que eu falo e não pelo que omito, mas eu espero que a CBF possa melhorar e realmente fazer com que a nossa Seleção esteja bem representada não só pelos jogadores.


Já que prefere pagar do que omitir: você quer ficar ou não no Barcelona?
Meu coração é feliz onde eu estou. Com o que eu tenho. Com as cores que eu defendo. Até quando não depende de mim. Se eu fizer minha parte, pra ficar ou pra sair, eu vou fazer a minha parte. A mesma vontade que eu tinha quando cheguei nesse clube é a mesma que tenho agora, mesmo com as especulações. Não é um problema pra mim. Eu não tenho pré-contrato com ninguém. Eu decidi que vou viver o meu momento, e meu momento é agora, estamos vivos em três competições. Quero finalizar meu contrato com títulos para acabar com um bom sabor de boca. E que o futuro me ofereça o que tiver de oferecer que eu vou aceitar, como vier. Eu acredito que tô preparado para o que vier.


Daniel Alves, Barcelona, entrevista (Foto: Divulgação)
Daniel Alves durante a entrevista ao GloboEsporte.
com em Barcelona (Foto: Divulgação)


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