Hamilton revela estilo conservador e garante que não perdeu o valor do dinheiro (Foto: Reuters)
Lewis Hamilton é o tipo de piloto que tem muitos fãs no mundo todo, não
apenas na Inglaterra, onde nasceu, numa área de classe média ao
norte de Londres, há 30 anos. Por mais que o novo padrão de vida
que os três títulos mundiais – o último deles conquistado este
ano - lhe permitem ter seja até exótico, como se pode entender de
suas viagens regulares, com jato próprio, pelo Caribe, Califórnia,
Colorado, o primeiro piloto negro na F-1 passa um ar que não esconde
sua origem simples.
Neste domingo, ele larga às 14h (de Brasília), em Interlagos, estimuladíssimo a repetir o
que seu ídolo,
Ayrton Senna, conseguiu em duas ocasiões, em
corridas épicas, em 1991 e 1993, pela McLaren.
Sai da segunda
colocação no grid, pois na pole está o companheiro de Mercedes,
Nico Rosberg, com quem teve algumas rusgas por ultrapassá-lo logo
depois da largada.
E
depois da definição do grid, neste sábado, a declaração de Hamilton não
deixa dúvida sobre qual será sua estratégia logo que os faróis
vermelhos apagarem: “A melhor chance que terei para assumir a
liderança será na largada e nos pit stops”. O inglês vai
provavelmente forçar a manobra no S do Senna se tiver a
oportunidade.
+ Rosberg dá bote no final, supera Hamilton e crava quinto pole seguida
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O
foco da conversa exclusiva do GloboEsporte.com com Hamilton, porém, não é o
que ele poderá fazer no 44º GP do Brasil, em Interlagos, neste domingo, mas
quem é Hamilton, por ele próprio. O piloto aceitou falar de sua
vida pessoal, do que faz quando não está nos autódromos, de seus
sonhos, os novos desafios e até do amor.
CONFIRA A ENTREVISTA COMPLETA
Livio
Oricchio: Lewis, você é um homem diferente hoje, mais relaxado,
ri com maior frequência, demonstra estar em sintonia consigo
próprio. Você pode descrever melhor esse seu momento excepcional,
como homem e profissional?Lewis Hamilton: Eu vivo meus sonhos, agora, todos os dias. Desde criança
eu queria ser como Ayrton Senna. Colocava enorme pressão em mim
mesmo, desde os oito, nove anos (início no kart), e foi assim por
muitos anos. Chegar na F-1 não foi fácil para todos nós da família
e ser o primeiro negro também a chegar no topo...
Você
sentiu resistência por causa disso?Com
certeza, há resistência no mundo todo para uma pessoa de cor dar um
salto, conseguir uma promoção, ou seja lá o que for, em qualquer
cenário. Na F-1 definitivamente também foi o caso. Comigo, pode-se
dizer, tive sorte nesse sentido. Quando cheguei aqui, fui colocado
numa caixa fechada e não podia manobrar, ser eu mesmo. Demorou bom
tempo até eu poder sair dessa caixa e me sentir, de fato, fora dela.
O
sucesso rápido que fiz ajudou a mudar essa situação, capitalizei
com isso. (Aos 22 anos, em 2007, Hamilton estreou na F-1, na McLaren,
e estabeleceu de cara um recorde impressionante, o de número de
pódios seguidos para um novato: nove.)
Você
falava das razões de todos o verem diferente este ano, mais sereno e
ainda mais eficiente como piloto.Sim,
me sinto mais relaxado, hoje, não preocupado com o que dizem,
escrevem a meu respeito, não faz a menor diferença para mim. Ok,
não é um processo simples e fácil, mas avancei muito nesse
sentido.
Esse
foi o ajuste que fiz em mim este ano. É como tirar um elefante dos
ombros. Vale para qualquer um, no trabalho, na escola. As pessoas que
se sentiam como eu na verdade encontram-se dentro de um casulo,
impossibilitadas de serem elas mesmas. Tem sido fantástico sentir-se
livre.
"Jesus, it
is burning!". Jesus, está queimando, diz Hamilton. O sol, no fim da
tarde, incide diretamente nas salas das equipes, em Interlagos. A
parede para o paddock é de vidro e o ar condicionado não vence o
calor gerado com a entrada dos raios solares. Como havia uma equipe
do SporTV aguardando a conversa do GloboEsporte.com para realizar a
sua entrevista com Hamilton, o piloto pediu o rebatedor, aquele disco grande,
usado pelas equipes de TV para refletir a luz, a fim de servir de
anteparo e, dessa forma, permanecer na sombra. Hamilton pessoalmente
segurou no início o disco, mas depois recebeu ajuda. E quando alguém
diz que a nova obra de Interlagos atendeu apenas parcialmente as
necessidades da F-1 acaba por ser criticado.
Este
ano, estou apenas correndo, desfrutando da minha paixão pela
velocidade, e tudo parece fluir muito melhor. Nunca pilotei tão bem.
O
que você faz que não fazia antes?Se
há algo que posso apontar é o fato de eu não me apegar tanto às
coisas como antes, eu não me preocupo mais com quase nada. Como
disse, se as pessoas começam a falar negativamente de mim, eu não
deixo me afetar, não trago para dentro de mim.
Costumava
incomodá-lo?Automaticamente,
sim. Acredito que a maioria aqui tem bom coração, claro, alguns
não. Algumas pessoas, às vezes acontece, não têm intenção de te
atingir negativamente, mas seus comentários não passam uma sensação
agradável. É o mesmo que uma criança na escola ouvir que é feia,
o cabelo também é feio.
Agora
criei barreiras e essa negatividade fica fora. Tudo o que dizem,
escrevem tem zero diferença em mim, porque sei quem eu sou, quais
são os meus valores, em parte também porque estou crescendo como
homem. Não preciso da avaliação de ninguém, apenas Deus pode me
julgar. No fim, o importante é saber que minha família e meus
amigos sabem quem eu sou e que sou uma boa pessoa.
O
que você faz fora dos fins de semana de competição?Amo
carros, naturalmente, novos carros, modelos de produção limitada,
música, gasto muito tempo ouvindo, tocando, nunca estudei música,
mas toco guitarra desde os 13 anos. Eu a trouxe para cá, toco no
hotel. Gosto também de moda, bebidas, ler, aprender sobre tudo.
Deixe-me ver... gosto me manter longe da F-1 e fazer coisas
diferentes. O trabalho na F-1 é quase sempre o mesmo. Vou num desfile
de moda, gosto de desafios fora do esporte.
Tem
namorada?Não
tenho. Estou solteiro realmente. Não ficava sem namorada, putz...
desde que tinha 21, 22 anos de idade, é muito tempo atrás. (Hamilton
e a cantora havaiana Nicole Scherzinger, sete anos mais velha,
mantiveram uma relação, por vezes tumultuada, por vários anos.
Acabou em março deste ano.)
Qual
a diferença entre estar namorando e viver agora a vida de solteiro?Quando
você está num relacionamento você sacrifica muita coisa para
primeiro que ele possa acontecer e depois se manter. Dedica na
sequência tempo... Depende também do tipo de relacionamento. Sobre
estar solteiro, tem sido uma experiência rejuvenescedora, estou
aprendendo mais sobre eu mesmo, vivo período muito bom da minha
vida, posso dizer fantástico, nunca me senti tão feliz. (Hamilton
adora colocar nas mídias sociais fotos das festas que frequenta e
com quem está, como com a cantora Rihanna, durante carnaval de rua
na ilha de Barbados, em agosto.)
Que
tipo de mulher você gosta?Não
tenho um tipo de mulher específico, olhando para as namoradas que
tive, pode parecer que eu tenho um tipo, mas não há. Gosto de alguém
divertido, que tenha bom coração, bons valores, que recebeu boa orientação
da família, mais bonita por dentro que por fora, o que não é fácil
encontrar, que goste de crianças, cheia de energia para ir atrás dos
seus objetivos, respeito as mulheres independentes.
Planeja
formar família, vem a sua mente ter filhos?Sim,
quando estava numa relação, mas agora estou sozinho, num período
da vida que isso não faz parte, virei a chave, acontece de tempos em
tempos. Meu foco é obter sucesso na minha atividade, me desenvolver
ao máximo no que faço, acho que estou nos meus melhores anos (como
piloto).
Quanto
a formar a minha família, chegará uma hora que vou pensar com
seriedade em ter filhos, ter um pedaço de mim correndo ao meu redor,
pensar no futuro dele. Vê-lo nas corridas será um desafio
completamente novo. Temos de ter sempre novos desafios, senão a vida
se torna muito chata.
Eu
vivo minha vida, hoje, um pouco no limite, você vê tantas coisas
acontecendo, como agora em Paris, o avião que caiu no Egito, há
duas semanas, os atentados na Turquia, nunca se sabe o que pode
acontecer. Aprendi a viver me divertindo, seja no que for e melhor
ainda ao lado de pessoas que sentem o mesmo.
Você
é conservador ou agressivo com o dinheiro que ganha? (Estima-se que
Hamilton fature, entre o contrato com a Mercedes e publicidade,
cerca de 45 milhões de euros, R$ 190 milhões, por ano)
Eu
diria que sou conservador, não faço investimentos, por exemplo, na
bolsa de valores, ou algo do gênero. Eu invisto em algumas
propriedades, como numa casa para a minha irmã, outra para minha
família, compro carros, o que amo, um pouco em arte. Sou muito
consciente com dinheiro, especial depois de 2008 (ano do primeiro
título, em que assinou vários contratos publicitários).
Não
preciso focar minhas ações apenas em ganhar muito mais dinheiro.
Não sou daqueles que quando passa a ganhar dinheiro quer muito,
muito mais. Eu entendo que existe inflação, essas coisas. Eu tenho,
hoje, mais dinheiro do que já tive e achei que teria, mas minha
missão não é trabalhar para ganhar mais e mais, estou contente com
o que tenho, em resposta à pergunta, sou bastante conservador.
Em
2007 você disse (ao hoje repórter do GloboEsporte.com) que o preço
de uma bicicleta que havia visto e o agradou era alto e não comprou.
Hoje compraria?Ainda
hoje, acontece de eu dizer quando me falam o preço de algo que me
interessei e achei caro: o quê? Você está louco? Claro eu compro
algumas coisas que são caras, como este cordão (de ouro maciço,
grande, pesado, usado no pescoço). Eu disse na hora: você está
louco? Quando era pequeno, lembro, eu tinha muito pouco dinheiro,
fazia economia em tudo. E por isso que quando ouço hoje certos
valores pergunto se o vendedor está louco.
Acontece
comigo também de estar numa loja, ver alguém perguntar o preço e
eu ouvir, por exemplo, 100 libras. Então eu vou e pergunto o valor
do mesmo objeto. O cidadão me olha e Ah! (identificando tratar-se de
Hamilton) e responde para mim, 500 libras (Hamilton ri alto).
Tenho
consciência disso, não faço essas loucuras, é injusto, odeio
desperdiçar dinheiro, odeio comprar coisas e deixar lá em casa, sem
uso, na garagem. Meus carros eu os adoro, compartilho com meus
cachorros, ou uma namorada. Eu uso, os mantenho espalhados, ficam em
Mônaco, no Colorado, em Los Angeles, Nova York, enfim, onde costumo
ir, e eu me divirto com eles. (Três deles, por exemplo, são muito
exclusivos, como a La Ferrari, de US$ 1,5 milhão (R$ 5,5 milhões),
o Shelby 427 Street Cobra, modelo de 1967, e a Maserati Gran Cabrio.
Hamilton desfila com eles em Mônaco.)
Depois de 20 minutos de papo, está na hora de colocar fim à conversa. Hamilton é quem
agradece não ter falado apenas de F-1.
FONTE:
http://globoesporte.globo.com/motor/formula-1/noticia/2015/11/de-coracao-aberto-hamilton-fala-de-tudo-menos-de-f-1-estou-relaxado.html