quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Nada decidido: Levir diz que decisão está aberta: "Atlético já mostrou isso"

Após vitória sobre rival no jogo de ida da Copa do Brasil, técnico do Atlético-MG lembra de viradas contra Corinthians e Flamengo: "Aprendemos muito com isso"


Por
Belo Horizonte
A

O que as viradas contra Corinthians e Flamengo deixou para o Atlético-MG além da alegria inesperada? A lição. Após a boa vitória por 2 a 0 contra o Cruzeiro no jogo de ida da final da Copa do Brasil nesta quarta-feira, o técnico Levir Culpi se manteve sereno. Humilde. Não há nenhuma grande vantagem. Para o treinador, o argumento maior para esta postura é o próprio Galo. O que o Alvinegro fez nas duas fases anteriores, para ele, pode acontecer com o rival no jogo da volta.

- O Atlético já mostrou isso. Claro que está aberto, tanto é que se falou que nós revertemos duas situações, aprendemos muito com isso, é questão de humildade e coragem. Sabemos que se fizer gol a situação melhora. É isso, saber defende e saber atacar – declarou o treinador, após a vitória contra a Raposa no Independência.


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Com aparência cansada, porém serena, Levir tem muito que avaliar até a segunda decisão. Ele cita o desgaste físico – que tirou Maicossuel do jogo desta quarta –, os dois jogos do Brasileirão até a partida de volta, e a tranquilidade com a boa vantagem. São muitos problemas. É muito para o técnico, que ultimamente tem falado em largar o futebol na próxima temporada. Ele até já tem uma meta: ser comentarista.

- Já escolhi: vou ser comentarista, só preciso que alguém me empregue (risos). O Atlético não faz bem para o meu coração. Mas estou muito feliz – declarou.

O comandante atleticano ainda comentou sobre a boa atuação e entrega de seus jogadores e avaliou a escolha do Independência para a primeira decisão. Confira os principais trechos da entrevista coletiva do treinador. 



DESGASTE FÍSICO
 Já faz tempo que estamos passando por situação assim, mas não é exclusividade do Atlético, a maioria das equipes que passaram de fase nas competições sul-americanas, Copa do Brasil, sofre com desgaste. Nosso elenco é grande, mas não tanto. Gostaria de parabenizar todos os jogadores. Estamos diariamente conversando sobre isso com eles. O Maicossuel estava chorando no vestiário por não poder entrar. A pior coisa que pode acontecer é contusão, a gente cuida, estamos procurando colocar os melhores e temos elenco para ter melhores resultados.


JEMERSON
 Jemerson é considerado titular da equipe, reconhecido por todos nós no meio, pelos canais, tem tido regularidade boa, jogos importantíssimos, jogou bem contra o Lanús na decisão da Recopa. Sempre esteve preparado. Os meninos são preparados, quero parabenizar o pessoal das categorias de base, a gente conta com eles sempre.


POSTURA DO CRUZEIRO
 O Cruzeiro entrou nos primeiros 15 minutos muito melhor que o Atlético. O Cruzeiro é bom no toque, porte físico, cabeceio, passe, é um time muito mais redondo e equilibrado pela sequência que tem. O Marcelo conseguiu deixar o time equilibrado. Achei que foi isso. Iniciaram com a vantagem, recuperamos as ações e isso é importante, principalmente em jogo de mata-mata.


GOL PERDIDO POR TARDELLI
 Se o Tardelli acertasse aquele chute, poderia ser três, mas se o Cruzeiro acertasse os que perdeu, poderia ser 3 a 2 para o Cruzeiro. É uma situação que não se pode lamentar, é difícil, ninguém tem certeza do que acontece. Aconteceu isso, nossas oportunidades foram aproveitadas e nossos resultados foram expressivos. 
Já escolhi: serei comentarista, só preciso que alguém me empregue (risos). O Atlético não faz bem para o meu coração. Mas estou muito feliz
Levir Culpi, sobre seu futuro


ESCOLHA DO INDEPENDÊNCIA
 É claro que sim (foi correta). Os números do Atlético aqui (no Independência) são realmente fantásticos. O Domênico (Bhering, assessor de comunicação do clube) me passou um dado que talvez estejamos entre os três com melhor aproveitamento em casa nos últimos três anos. Isso não é coisa normal. É o relacionamento com torcedor, com o estádio que traz atmosfera muito favorável. O Atlético tem que saber disso, somos profissionais.


ENTREGA DOS JOGADORES

Tivemos problemas que nem esperávamos ter. Alguém escreveu uma coluna, que chegou até nós. Escreveu dizendo que o Atlético é time que não tem explicação. O Atlético se molda, pessoas entram em uma atmosfera de guerra principalmente nos jogos mais decisivos. A gente deve muito a essa simbiose que aconteceu entre os jogadores. Mesmo com os títulos chegando, temos problemas graves, mas estamos felizes. Jogadores não admitem derrota. É o primeiro ponto para reagir e ter bons resultados.


LATERAL DO MARCOS ROCHA
 Vou ser bem sincero, isso não é treinado. Isso é dele. É qualidade dele, e isso facilita tudo. Não preciso orientá-lo, nem dizer nada. E é uma arma que temos.


VAI POUPAR JOGADORES?
 Tenho em mente o que fazer, mas não vou falar. Sempre tenho, mas nem sempre exponho.


Atlético-MG x Cruzeiro - Levir Culpi (Foto: Gustavo Andrade)
Levir orienta o Galo durante a decisão 
(Foto: Gustavo Andrade)


FONT:

Galo faz 2 a 0 no primeiro dos maiores clássicos da história de MG

Luan e Dátolo dão ao Atlético-MG grande vantagem no primeiro jogo da final da Copa do Brasil. Cruzeiro precisa de três gols na volta, no Mineirão



 A CRÔNICA


por Alexandre Alliatti


Soassem no início da madrugada desta quinta-feira as sete trombetas do apocalipse, deixasse o mundo de existir, deixasse o futebol de existir também (o que talvez seja ainda mais grave), Atlético-MG e Cruzeiro poderiam mergulhar na eternidade aconchegados na certeza de que gravaram no campo do Independência, instantes antes, o maior episódio de suas vidas como seres inseparáveis, como entidades unas, como eternos rivais que não vivem um sem o outro. A vitória de 2 a 0 do Galo, gols de Luan e Dátolo, foi o primeiro episódio dos dias mais emblemáticos de rivalidade entre os dois gigantes de Minas Gerais – terra tão vasta quanto é seu futebol. Eles jamais decidiram um campeonato nacional. Pois chegou o momento, e quem começou a se apossar dele foi o Atlético. Até derrota por um gol no Mineirão, dia 26, torna o time de Levir Culpi campeão.

Afinal, vantagem de 2 a 0 em um clássico desse tamanho não é pouca coisa. É enorme. É coisa de doido, de Galo Doido, de "doidinho" – como é chamado Luan, o autor do primeiro gol, o atacante que cantou o hino do Atlético no banco de reservas da Ponte Preta, quando foi enfrentar seu futuro time no Independência, o jogador que carrega no braço, tatuada, uma frase de Garrincha: “O que eu queria eu fiz e faço até hoje, que é brincar de bola”. Coisa de doido como só um argentino é capaz de ficar em um clássico. Dátolo, um dos melhores em campo, marcou o segundo na etapa final.

Atlético-MG x Cruzeiro - Luan (Foto: Gustavo Andrade)
"Doidinho" Luan foi de novo decisivo para o Galo 
ao fazer o primeiro gol da final 
(Foto: Gustavo Andrade)


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A maluquice é que os atleticanos, em uma noite sem poréns em campo, precisam lidar com uma ressalva: não são campeões ainda. Longe disso. E por uma série de motivos: o time do Cruzeiro é muito bom; o aproveitamento celeste no novo Mineirão é de 86%; a casa será praticamente toda azul, com maioria esmagadora de cruzeirenses. Mas controlar o rival virou uma especialidade alvinegra: no sexto clássico do ano, foi a terceira vitória do Atlético, e os outros terminaram empatados. Nada de o Cruzeiro vencer ainda.

Certo é que as trombetas do apocalipse não serão loucas de tocar até lá. Há um clássico de sair faísca pela frente. Para ser campeão, o Cruzeiro precisa vencer por três gols de diferença ou devolver os 2 a 0 e tentar a sorte nos pênaltis. Se o Atlético fizer um gol, a Raposa precisará fazer quatro.

Luan, imune a pressões

Pressão mesmo Luan sentia quando jogava nos campos de barro de São Miguel dos Campos, em Alagoas. Menino, ia de pés descalços, olhos arregalados e ouvidos alertas brincar de bola. Era proibido. Se sua mãe o flagrasse ali, ele levaria uma surra. Ela queria que ele fosse pastor, não jogador. Mas ele não era doido de pensar a mesma coisa. Sabia que a bola seria sua vida. Parecia sentir que faria 1 a 0 para o Atlético-MG sobre o Cruzeiro nesse 12 de novembro de 2014.

O lance veio à luz quando o jogo ainda era um recém-nascido. O que são oito minutos quando vistos pelo prisma da posteridade? O Galo começava a formular uma pressão no Horto, a torcida quicava nas cadeiras do Independência, e Marcos Rocha tinha um lateral a cobrar pela direita. Das mão dele, a bola viajou até a área. Foi afastada. E voltou para ele. O novo cruzamento parecia teleguiado a cair no meio da área. Onde estava Luan. Onde estava o gol. De cabeça, o atacante venceu Mayke e encontrou o canto à esquerda de Fábio.

Dátolo, meia do Atlético-MG, comemora gol sobre o Cruzeiro - Final da Copa do Brasil (Foto: Reprodução/TV Globo Minas)
Dátolo brilhou mais uma vez com gol em momento 
decisivo (Foto: Reprodução/TV Globo Minas)


O Independência entrava em surto. Luan, o doidinho, mergulhava em euforia. O Galo pulava na frente.

O atacante estava em posição irregular, um pouco adiante da linha de marcadores, quando cabeceou para o gol. A arbitragem não viu, tampouco os jogadores do Cruzeiro, que logo partiram em busca de uma reação. Moreno, em chute cruzado, forçou Victor a boa defesa. Ricardo Goulart quase aproveitou bola mandada na área pelo boliviano. Mas foi só.

Foi só porque o Cruzeiro não foi aquele Cruzeiro de sempre. Em boa parte do primeiro tempo, os jogadores celestes pareciam presos por cordas, pareciam ter chumbo nas chuteiras. Por mais que tentassem, não conseguiam se sobressair à caça atleticana. Éverton Ribeiro pintou como boa opção – só que sem vitória pessoal. Ricardo Goulart caiu na areia movediça da defesa. Marcelo Moreno ficou isolado. Faltou à Raposa aquela fluência que a transformou em uma equipe encantadora.

E aí o Galo, sem ser acossado, encontrou ambiente para seguir no ataque. Carlos, duas vezes, arriscou voleios – lances bonitos, mas sem sucesso. Dátolo encontrou o cantinho inferior de Fábio, que, atento, conseguiu defender. E sucederam-se lances de bola aérea, marcação cerrada e equilíbrio de ações – a posse de bola terminou 50% a 50% na etapa inicial.

Dátolo, enlouquecido: 2 a 0

O Cruzeiro voltou com Nilton no lugar de Lucas Silva no segundo tempo. O plano era dar maior firmeza na marcação para, assim, poder explorar mais o ataque. Mas o Galo seguiu irretocável em campo. Dátolo, com dois minutos, já arriscou chute a gol. Fábio pegou. Mais do que uma tentativa, foi um aviso. Porque aos 13 a bola entrou.

Foi de novo em um lateral. De novo com Marcos Rocha. Ele cobrou na área, Carlos ajeitou e Dátolo mandou o chute seco, cruzado. 2 a 0. Loucura do argentino. Loucura no Independência.

Atlético-MG x Cruzeiro - lance de jogo (Foto: Gustavo Andrade)
Fábio e a defesa do Cruzeiro sofreram com as 
bolas aéreas do Galo (Foto: Gustavo Andrade)


"Caiu no Horto, tá morto", tanto dizem os atleticanos. Coube ao Cruzeiro tentar dar alguma sinal de vida. Júlio Baptista e Dagoberto foram as novas tentativas de Marcelo Oliveira. Aí a Raposa apresentou crescimento. Mas sem alcançar chances reais de gol - Éverton Ribeiro, antes, arriscara com perigo para Victor.

Conforme o tempo passava, mais o Cruzeiro se postava à frente, mais o Galo se virava para manter o resultado, mais a torcida ficava entre a euforia e a apreensão. E ainda havia os contra-ataques atleticanos. Em um deles, Diego Tardelli quase fez. Fábio salvou.

Os minutos finais foram de agulhadas no ouvido com as vaias da torcida enquanto o Cruzeiro tinha a bola. Tão de pé quanto os jogadores, os torcedores viram as ações derradeiras. E elas mantiveram o 2 a 0, enorme vitória do Galo, enorme vantagem – mas não suficiente para dizer que o Cruzeiro saiu morto do Horto.




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