Com endosso da Fifa, empresa esclarece
situação, diz que campos serão 'ponto alto' na Copa do Mundo com
maturação do solo, mas pede tempo para trabalhar
Por André Casado*
Rio de Janeiro
Esbanjando beleza e estrutura de alto nível por dentro, mas ainda com
muito trabalho a fazer no entorno, os estádios que recebem a Copa das
Confederações estabeleceram uma espécie de consenso. A condição dos
gramados, porém, apesar da aparência de tapete, gerou críticas no Mané
Garrincha e na Arena Fonte Nova. Com o endosso da Fifa, a Greenleaf,
empresa contratada para realizar o trabalho nos seis palcos, esclarece
que o atraso na entrega das arenas impactou na qualidade do solo, que
precisaria de mais tempo antes de ser usado. E já se preocupa com o
prazo de liberação em 2014, para evitar o problema no Mundial.
Em alguns casos, como o de Brasília, a instalação da grama só pôde ser
feita 18 dias antes da abertura oficial. Não há desnivelamento ou
buracos, mas alguns tufos soltam com muita facilidade. O clima também
não facilitou, com chuvas fortes na maioria das cidades.
Mais maduro, campo do Castelão, feito pela mesma empresa, é elogiado pelas seleções (Foto: Reuters)
- O Brasil ficou atrasado nas obras, e o gramado foi plantado muito
recentemente. Não tivemos tempo hábil para preparar como queríamos. O
transporte em meio à chuva, a colheita, isso tudo criou problemas. Mas
todo o esforço foi feito. Realmente, Brasília não estava dentro do que
queríamos, mas atendeu decentemente. E era um jogo só. Não está nota 10,
mas foi aprovado pela Fifa. Não interferiu na qualidade do jogo e está
melhor do que quase todos pelo Brasil - apontou o engenheiro agrônomo
Paulo Azeredo, um dos sócios da Greenleaf.
Sempre após treinos e jogos, uma equipe da Fifa se junta a
representantes da empresa para avaliar a condição do solo, cortá-lo
novamente e recuperá-lo para o dia seguinte. Nenhuma arena receberá mais
do que três partidas no período do torneio, que termina no próximo
domingo. Com um método de drenagem de primeiro mundo, a grama é irrigada
pouco antes de a bola rolar para tornar a partida mais rápida, algo até
então incomum no país.
Gramado da Arena Fonte Nova danificado após o jogo Nigéria 1 x 2 Uruguai (Foto: Richard Souza)
Após a competição internacional, as respectivas federações, consórcios
ou os donos particulares podem utilizar os estádios como quiserem. Mas
vão participar de reuniões frequentes com a entidade para não haver
prejuízos futuros. No entanto, o Maracanã já ligou o alerta, pois o
Engenhão está interditado para reparos emergenciais e só deve retornar à
ativa em 2015. Botafogo, Flamengo e Fluminense, em tese, vão precisar
mandar jogos no Rio até maio, mas os responsáveis esperam ter de 60 a 90
dias para recuperar o local.
- Esse pouco tempo preocupa para o ano que vem também. No Rio,
principalmente. Como vão fazer sem o Maracanã, que vai voltar a ser a
dependência? Para a Copa, todos os gramadoas que já foram entregues vão
estar maduros, com a raiz forte, mas precisamos de pelo menos 60 dias
para trabalhar. Até fevereiro, março pode usar. Depois, não pode ter
nada, senão não dá para reclamar. Em Minas Gerais, na Bahia, por
exemplo, tem outras opções de estádios. Mas, sem o Engenhão, vamos ver
que solução vão arrumar (no Rio) - lembrou Azeredo.
Através de comunicado, a Fifa também apontou o atraso no cronograma
como culpado na polêmica, mas crê que o nível dos gramados para as
Confederações é bom e explicou que sua participação é apenas na parte de
consultoria e acompanhamento. Há uma semana, o secretário-geral, Jérôme Valcke, agradeceu "por só haver um jogo no Mané Garrincha".
A Copa das Confederações foi feita para se testar, tudo o que está
certo e o que está errado. No cômputo geral, todos os (gramados) vão
sair com louvor. Daria nota 8"
Paulo Azeredo, engenheiro agrônomo
"Os projetos e a implementação dos gramados são de responsabilidade do
proprietário do estádio. No entanto, devido à importância deste aspecto
para o sucesso do evento, a Fifa e o Comitê Organizador Local (COL)
forneceram gratuitamente às 12 sedes orientações técnicas de alto nível
sobre o tema. Essa ampla pesquisa resultou num documento personalizado
para cada estádio e entregue no primeiro semestre de 2012 para nortear a
estratégia de implantação dos gramados, observando as diversas
variáveis existentes e o nível de excelência necessário. Em sua maioria,
os desafios encontrados são resultado da instalação do gramado depois
do recomendado, devido à entrega das obras posterior ao prazo requerido
em alguns casos. A equipe técnica do COL, no entanto, avalia que, embora
haja espaço para melhorar, todos os gramados da Copa das Confederações
têm boa qualidade diante do tempo de instalação e estão seguros para o
jogo", relata a nota da entidade.
Diante da urgência, o Maracanã, a Arena Pernambuco e o Mané Garrincha
tiveram que receber a grama em rolo, e não pelo sistema Strigges
(plantado em muda e sem interferência no nivelamento). E Mineirão,
Castelão e a Fonte Nova, mesmo com antecedência na inauguração,
abrigaram shows em 2013. Os dois primeiros, porém, são considerados
perto do ideal e têm sido citados como o padrão que as outras arenas
devem seguir.
- Não é o ideal, mas, devido ao tempo, foi o recurso que tivemos. Ainda
assim, foi feito um trabalho especial. Os que não foram recém-plantados
tiveram shows de axé, do Paul McCartney (BH e Fortaleza). Tudo bem, a
gente entende que os estádios precisam de receita. Mas atrapalha um
pouco o nosso trabalho - comentou Paulo Azeredo.
No fim das contas, a expectativa é de que sediar competições de alto
nível mude a mentalidade dos clubes para que os campos ganhem em
qualidade no futebol brasileiro.
- A Copa das Confederações foi feita para se testar, tudo o que está
certo e o que está errado. No cômputo geral, todos os (gramados) vão
sair com louvor. Daria nota 8. E tenho certeza de que na Copa serão o
ponto alto. E com a importância do benefício que trará nesse sentido ao
país. Já temos estádios que não estão na Copa, como o do Palmeiras
(ainda em obras), do Grêmio, do Sport, procurando e investindo no que há
de melhor. Avançamos uns dez anos em dois, acredito - comemora o
engenheiro agrônomo.
* Colaborou Richard Souza
Detalhe do campo da Arena Fonte Nova na inspeção pós-jogo da Fifa e da empresa (Foto: Richard Souza)
Paulinho tenta o chute no Mané Garrincha, contra o Japão: gramado criticado pela Fifa (Foto: Getty Images)
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