segunda-feira, 1 de junho de 2015

Da quase ida ao Flamengo ao choro, Fernandão muda a história do Inter

GloboEsporte.com abre especial e relembra passagem do jogador pelo clube gaúcho



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Porto Alegre
Header 1 ano sem Fernandão Inter (Foto: Infoesporte)

Um astro celestial. Fernando Lúcio da Costa chegou ao Inter para se tornar uma verdadeira estrela e gerar uma guinada no rumo da história do clube gaúcho, assim como também a si próprio. Foi essa sinergia que fez ambos alcançarem o ápice simultaneamente. Há quem defenda que um não teria ido tão longe sem o outro. Era como se o destino conspirasse para que uma peça encaixasse na outra. 

Em 7 de junho de 2014, Fernandão faleceu precocemente, ao se envolver em acidente de helicóptero, aos 36, em Aruanã, cidade do interior de Goiás. Um ano depois, o jogador que levou o Inter ao salto mais alto, com a conquista do Mundial de Clubes de 2006, já não se encontra mais entre nós, mas os feitos do Capitão América, a luz que o centroavante corpulento de 1m90cm de altura serão lembrados pela eternidade e, em parte, recontados pelo GloboEsporte.com, em conteúdos especiais diários que serão publicados desta segunda-feira até o próximo sábado. 


O DESAFETO

Fernandão conversa com Hélio dos Anjos, no Goiás, em 2000 (Foto: Arquivo/Lailson Duarte/O Popular)Fernandão era observado desde a base do Goiás (Foto: Arquivo/Lailson Duarte/O Popular)


Presidido por Fernando Carvalho, o Inter vivia momento de reestruturação em 2004, principalmente após a quase queda no Brasileirão de dois anos antes. A ideia era a de formar, a médio prazo, um time competitivo capaz de brigar por títulos nacionais e internacionais. Insatisfeito com o desempenho de Oséias, contratado no final do ano anterior, o clube buscava um centroavante de ofício, jogador de área, goleador. Logo, surgiu o nome de Fernandão. E o dirigente desafiou o empresário Wagner Cruz a levar o atleta para o Beira-Rio.

- Eu já o acompanhava há muitos anos, desde que era júnior no Goiás. Foi o Odair Hellmann (atual auxiliar-técnico fixo) quem indicou. Fiz como um desafio ao Wagner Cruz. "Pô, quer me trazer um monte de cabeça de bagre? Me traz o Fernandão" - lembrou Carvalho, ao GloboEsporte.com.

Formado no Goiás, clube em que empilhou gols entre 1995 e 2001, Fernandão já havia sido procurado pelo Inter, mas a negociação não foi adiante graças a um "não” dos goianos. Na metade de 2001, o atleta acabou negociado com o Olympique de Marseille, clube em que saboreou do destaque nas duas primeiras temporadas como meia-atacante. Em contrapartida, perdeu espaço no terceiro ano, quando o treinador Alain Perrin alterou o sistema tático, e amargou a reserva.

- No final da temporada 2002/2003, era o destaque do time. Nas últimas rodadas, machuquei a cabeça. Quando voltei das férias, o técnico mudou o esquema. Aboliu o meia de ligação e adotou uma linha de quatro. Aboliu minha função - confidenciou Fernandão ao jornal Zero Hora, na época, dias antes de ser contratado.

Acabou emprestado ao Toulouse, clube que sofria na lanterna do Campeonato Francês, mas que o possibilitaria voltar a atuar e recuperar ritmo. No clube, disputou 16 partidas e marcou três gols. Ajudou a equipe a escapar do rebaixamento e virou ídolo. 



QUASE IDA AO FLAMENGO


Fernandão é contratado pelo Inter em 2004 (Foto: Robinson Estrasulas / Agência RBS)
Fernandão é contratado pelo Inter em 2004 
(Foto: Robinson Estrasulas / Agência RBS)


Wagner Cruz levou o desafio de Carvalho a sério. Solicitou a amigos na França que descobrissem o contato de Fernandão. Assim que teve êxito na jornada, telefonou para o hotel em que o atleta se hospedava na cidade localizada no sul da França. A primeira conversa foi com a esposa, Fernanda Costa.

- Consegui o telefone do Fernandão em Toulouse e falei com a Fernanda. Queria ver a possibilidade de trazê-lo para o Inter. Ela disse que "estava louco para vir embora” - conta o agente.

- O Fernando já queria voltar, já estávamos há um tempo na França. Recém tínhamos tido as crianças (os gêmeos Enzo e Eloá). Não tinha tido nada de concreto até o Wagner aparecer - explica Fernanda.

Os contatos entre agente e atleta iniciaram e ambos se encontraram em uma churrascaria de Goiânia, após o encerramento da temporada europeia. Na hora de apresentar a proposta, chamou a atenção de Fernandão a presença de Fernando Carvalho. Foi determinante para a escolha da mudança, o chamado "olho no olho".





 Mas o Inter teve dois fatores que dificultaram a negociação. Ex-jogadores, os empresários Ranieri e Paulo Nunes tentaram levar o atacante para o Flamengo, clube que tinha desejo de atuar por conta de idolatria a Zico. O Olympique também desejava US$ 1,5 milhão para liberar o atacante.  

Ao temer por um desfecho negativo, a direção gaúcha chegou a anunciar a desistência do negócio. Dias depois, o então vice de futebol Vitorio Piffero se encontrava com Fernandão no Rio de Janeiro para selar a transferência, oficializada em 15 de junho de 2004.

- Foi estratégia do Fernando em recuar na negociação. Quando viajei para o Rio, já estava definido - afirma Vitorio Piffero. 


PREDESTINADO EM GRE-NAIS




A contratação de Fernandão foi respaldada na época pelo técnico Lori Sandri, com quem já havia sido treinado no Goiás. Embora tenha conquistado o tricampeonato do Gauchão naquela temporada, o mau futebol apresentado no Brasileirão causou a queda. Joel Santana assumiu a função.

Vinte e cinco dias após ter desembarcado em Porto Alegre, Fernandão teria a chance de vestir a camisa pelo clube - utilizou a de número 18, na primeira vez. Quis o destino, então, brincar com o brilho do atacante. Seria justamente em um Gre-Nal histórico, no Beira-Rio. O clássico de número 360 ficaria conhecido como o "Gre-Nal do gol mil" (confira vídeo acima).

Era uma tarde fria de sábado no Beira-Rio. Passado um primeiro tempo morno, o Inter tentava ser mais incisivo na etapa final, principalmente quando Joel sacou o zagueiro Wilson para promover a estreia do novo reforço. Com poucos minutos em campo, Fernandão sofreu falta na ponta direita. Alex fez o cruzamento e o zagueiro Vinícius abriu o marcador no gol 999. 

Mas era a tarde daquele centroavante cabeludo e ainda pouco conhecido dos gaúchos se mostrar para o torcedor. Aos 33 minutos do segundo tempo, Elder Granja avançou na ponta direita e fez cruzamento que entraria nos anais dos clássicos. Fernandão saltou 50 centímetros do gramado e voou imponente por cima da zaga gremista. Com desenvoltura, apresentava ao Beira-Rio uma das suas virtudes: o cabeceio. Na comemoração, caiu de joelhos no gramado, quando Sobis o cochichou ao ouvido o feito. 

- Para tudo, meu povo, estamos no dia 10 de julho de 2004. São 34 minutos da etapa complementar. Fernandão, o rapaz goiano que veio da França está fazendo o gol mil em Gre-Nais. Gol que vai para a história. Estreia em Gre-Nais e vai para a história. Cabeceador, é por isso que foi contratado. O gol mil tem nome e é Fernandão, é predestinado - narrou Pedro Ernesto Denardim à Rádio Gaúcha. 



INICIO DE UM LIDER

Jogo após jogo, Fernandão mostrava-se polivalente em campo e com qualidades, que enchiam o torcedor de otimismo. Afinal, o Inter tinha encontrado uma peça rara. Era um jogador com corpo de centroavante e ainda com inteligência de meia-articulador. Como plus, ainda era líder nato. A identificação da torcida com o jogador foi instantânea.

O Inter buscava reforços importantes para o time, como Tinga e Iarley. Na temporada de 2005, era Muricy Ramalho quem se tornou responsável por comandar a equipe. Foi quando a equipe alcançou novo patamar. Acabou vice-campeão de um Brasileirão repleto de polêmica - a competição teve 11 jogos anulados após o escândalo da arbitragem.

- Foi duro para todos nós. Nós ganhamos dentro de campo, todos ficamos sentidos, inclusive o Fernandão. Os caras que lideram, como ele, que são referência, têm que abraçar, acalmar os companheiros. O Inter estava em uma reformulação, formando uma nova mentalidade. E o Fernandão foi fundamental para esse reinício do Inter até ser campeão do mundo. Ele fazia a diferença - elogiou Muricy. 



Fernandão mudou muita coisa, foi um dos pioneiros. Era o cara. Não que tudo girasse em torno dele, mas ele fazia com as coisas acontecerem. Ele era o guia

Fernandão era diferenciado dentro e fora de campo. Progressivamente, passou a ser seguido pelos demais atletas como se fosse um guia, uma referência. E os colegas acatavam, como lembra Edinho. 


– Fernandão mudou muita coisa, foi um dos pioneiros. Não só ele, a galera toda que participou. Era o cara. Não que tudo girasse em torno dele, mas ele fazia com as coisas acontecerem. Ele era o guia. Ele falava “direita, para frente, para trás”, e a gente ia – relembra.
Um líder não só para os jovens, mas até os mais experientes, como foi com Tinga, quem viria a se tornar um dos grandes amigos de Fernandão no futebol e na vida. 

– Ele era o líder máximo por ser o capitão, mas não se lidera nada sozinho. Era a figura máxima. Sabia conversar qualquer tipo de assunto. É o cara que representava muito e era espelhado. Ele inspirava muita gente pela maneira de conduzir as palavras – lembra Tinga. – O Inter era outro antes de 2005. Tenho convicção de que o Inter era um quando cheguei. Hoje, é outro clube. Se tornou o time respeitado no mundo todo.


CAPITÃO AMÉRICA


Tinga, Fernandão e Abel, em 2006 (Foto: Inter, DVG)Tinga, Fernandão e Abel em 2006 (Foto: Inter, DVG)


Passado um hiato de 13 anos, o Inter voltaria a disputar a Libertadores. Se o time era comandado por Abel Braga, dentro de campo era quem puxava a responsabilidade, o jogador que sabia “ler o jogo” e passar instruções aos companheiros. Ganhava ali a alcunha de Capitão América.

Mas faltava alguma coisa para o Inter ser campeão. Faltava o “torcedor acreditar”, como confidenciava Fernandão a amigos.

- Ele dizia que faltava o torcedor acreditar que iríamos vencer. Não ir para os jogos achando que seriam derrotados. O Fernando nunca falava que não iria conseguir. Ele dizia “nós vamos ser campeões, nós vamos conseguir” - revela Fernanda Costa.

Fernandão acabou como um dos artilheiros daquela Libertadores, com cinco gols. Somado a isso, ainda conseguiu sete assistências. Na final disputada contra o São Paulo, em 16 de agosto, abriu o placar aos 29 do primeiro tempo, enquanto ajeitou para Tinga completar aos 20 do segundo. O empate em 2 a 2 colocaria o Inter no topo da América pela primeira vez. A partir de então, nunca mais seria o mesmo Colorado sem renome que justificasse o nome "Internacional".


fernandao levanta a taça libertadores (Foto: Agência Reuters)Fernandao levanta a taça da Libertadores (Foto: Agência Reuters)


– Eu sou daqui e sei como é. Ia a jogos quando tinha 12, 13 anos e vi a diferença que era de Grêmio para Inter. Em nível internacional, só se falava em Grêmio. Hoje, é aquilo que se vivia em 90, até 2004. Hoje tem o mesmo número de torcedor, mas em termos de grandeza, o Inter é bem maior no momento – compara Tinga.

O Inter estava pronto para um salto ainda maior. No final daquele ano, Fernandão comandou o time também na conquista do planeta, na vitória por 1 a 0 sobre o Barcelona, com gol de Adriano Gabiru. Afinal, o atacante havia mudado a mentalidade daquele grupo. Alterou a forma de pensar do clube, que passou a acreditar.  


No retorno a Porto Alegre, outro feito que o deixaria marcado. Dentro de um Beira-Rio lotado e submerso em euforia por conta do Mundial, o capitão pegou um microfone e cantou cânticos da torcida, o "vamo, vamo, Inter", como se fosse o mais comum dos torcedores.

Se o Inter saboreou do melhor vinho das vitórias em 2006, entrou em ressaca no ano seguinte. A equipe não conseguiu nem mesmo se classificar para as fases decisivas no Campeonato Gaúcho. Na disputa da Libertadores, outra decepção: queda na primeira fase. 



MAL-ENTENDIDO

 Fernandão deixaria o Inter em 14 de agosto de 2008, quatro anos após ter sido contratado. Com um discurso de que voltaria, se transferiu para o Al-Gharafa, do Catar, onde atuou até 2009. Como jogador, esteve perto de retornar ao clube gaúcho. Mas por um desencontro, com conta Fernando Carvalho, optou por jogar no Goiás.

- Foi um mal entendido. Eu não ia viajar para a Copa Suruga (em 2009). Quando o Fernandão me ligou, meu telefone não estava pegando. Mandei um e-mail para ele ligar para o Chumbinho (diretor de futebol). Ele se ofendeu, achou que estávamos fazendo pouco caso e acabou acertando com o Goiás. Deu um ruído desnecessário - admite Fernando Carvalho.  

 Se eu sou um capitão da maioria das equipes em que passei, aprendi com o Fernandão. Ele era o carro-chefe. Se você tem uma inspiração do teu lado, isso contagia
Bolívar

Mas o Inter pós-Fernandão se tornou um clube maior, havia aprendido a se tornar vencedor. Em 2010, voltou a ser campeão da Libertadores, agora com D’Alessandro como principal jogador e Bolívar com a braçadeira como herança. O General havia aprendido a ser líder com o melhor dos exemplos.

- Se eu sou um capitão da maioria das equipes em que passei, aprendi com o Fernandão. Sempre prestava atenção, ele sempre passava muita dicas de liderança, de como ser um cara competitivo e que precisava buscar seu limite todo tempo. Na verdade, ele era o carro-chefe. Se você tem uma inspiração do teu lado, isso contagia - exalta Bolívar. 

VOLTA AO INTER

Fernandão comanda primeiro treino no Inter (Foto: Diego Guichard/GLOBOESPORTE.COM)
Fernandão comanda primeiro treino no Inter 
(Foto: Diego Guichard/GLOBOESPORTE.COM)


A carreira do jogador sempre foi marcada por feitos precoces. Em 10 de maio de 2011, o atacante rescindiu contrato com o São Paulo. Optou por encerrar ali, aos 33 anos, a vida de jogador. Dois meses depois, voltaria ao Inter, mas como diretor executivo de futebol.

Em 20 de julho do ano seguinte, Fernandão iniciou a carreira de treinador, ao assumir a função de Dorival Júnior, então demitido. Mas o sucesso como técnico não foi o mesmo do que como atleta do clube. Quatro meses depois, também não resistiu ao cargo. Conseguiu nove vitórias, oito empates e nove derrotas, um aproveitamento de 44,8%. Na segunda despedida, se lavou em emoção e se deixou levar pelas lágrimas (veja abaixo).

Fernandão se afastou do clube, deixou Porto Alegre e voltou a viver em Goiás, onde acabou falecendo no ano passado. A perda do ídolo causou comoção entre torcedores, que lotaram o Beira-Rio com presentes, devoção e lágrimas. 




ETERNIZADO

Em 17 de dezembro de 2014, milhares de torcedores emocionados voltaram para a frente do Beira-Rio. A data marcou oito anos da vitória sobre o Barcelona e também a inauguração da estátua para Fernandão.  

No próximo dia 7 de junho, data que marca um ano da morte de Fernandão, o Inter prepara uma série de ações para homenagear o ídolo. A principal ação é um mosaico que será formado durante o jogo com o Coritiba, no mesmo dia, além da realização de missa em frente à estátua, no período da manhã.


Arco-Íris se coloriu o céu na inauguração da estátua de Fernandão (Foto: Mônica Casarotto/Grupo Gigante Para Sempre)
Arco-Íris se coloriu o céu na inauguração da 
estátua de Fernandão (Foto: Mônica 
Casarotto/Grupo Gigante Para Sempre)



Para muitos, a morte de Fernandão ainda “não caiu a ficha”. É como se o jogador permanecesse entre os demais.


– Eu fico tentando buscar alguma palavra, mas fico muito emocionado. As lembranças que tenho dele são vivas, do dia a dia, da concentração. Há pessoas que não poderiam morrer. O Fernandão não podia ter morrido – lamenta Edinho. 

Na verdade, a luz daquele jogador segue mais forte do que nunca. Se o Inter está em uma semifinal da Libertadores, com grandes chances de ser campeão, também se deve aquela estrela chamada Fernando Lúcio da Costa que não chegou ao clube por acaso, que seguirá inspirando colorados dentro e fora de campo. Jamais será esquecido. 



*Colaborou Eduardo Deconto


FONTE:
http://glo.bo/1cu1axQ?utm_source=link&utm_medium=share-bar-desktop&utm_campaign=share-bar

Porta-voz da Justiça suíça diz que extradição pode levar até seis meses

Em entrevista ao Globoesporte.com, Folco Galli explica que EUA não tomam parte neste processo. Detidos têm até o dia 8 de junho para apelar contra a prisão



Por
Berna, Suíça

José Maria Marin e outros seis dirigentes ligados à Fifa continuam presos em Zurique, na Suíça. E, de acordo com as explicações do porta-voz da Justiça Federal, Folco Galli, em entrevista ao GloboEsporte.com, o caso não deve ser resolvido rapidamente. A situação no momento é a seguinte: os sete têm até o dia 8 de junho para apelar contra a prisão. Os Estados Unidos têm 40 dias para formalizar o pedido de extradição. A Justiça suíça não analisará o mérito do caso, ou seja, não julgará a culpa ou inocência dos acusados, somente se as infrações pelas quais foram presos seriam também passíveis de punição no país. Caso isso se confirme, poderão ser extraditados. Mas os EUA, como disse o porta-voz, não são parte no processo de extradição que corre na Suíça.

Folco Galli confirmou que todos os presos estão em prisões diferentes e que não têm quaisquer privilégios em relação a outros detentos. Depois do recurso contra a prisão, a Justiça decide se eles devem ou não ser libertados, mas a Justiça Federal também pode apelar com pedido de efeito suspensivo, para que só haja a liberação após o julgamento do seu recurso. Ele descartou ainda a possibilidade de transferência de qualquer um dos detidos para um modelo de prisão domiciliar. No caso de alguma necessidade especial, como problema de saúde, que não possa ser resolvida pelos médicos na prisão, a alternativa é a transferência para um hospital penitenciário.



Folco Galli, porta-voz da Justiça Federal da Suíça (Foto: Vicente Seda)
Folco Galli, porta-voz da Justiça Federal da 
Suíça, explicou o processo de extradição do 
caso Fifa (Foto: Vicente Seda)


O porta-voz confirmou ainda que todos os detentos contestaram o pedido de extradição – inicialmente um deles chegou a concordar com a extradição simplificada, mas desistiu – e com isso os procedimentos devem durar em torno de seis meses, caso a Justiça suíça determine que as condições do tratado bilateral entre Suíça e EUA foram preenchidas. Não há um prazo específico para o fim do processo.


Confira a íntegra do porta-voz da Justiça Federal Suíça, Folco Galli:


Como acontece o processo de extradição dos detidos no caso Fifa?Os sete dirigentes de futebol que foram detidos foram ouvidos no primeiro dia e se opuseram ao pedido de extradição dos Estados Unidos. Então pedimos aos Estados Unidos para formalizarem o pedido dentro do período de 40 dias. O detido que havia indicado que optaria pela extradição simplificada decidiu também se opor à extradição, por isso pedimos o pedido formal de extradição. Eles estão no momento presos, a detenção é sempre a regra em casos de extradição, e agora esperamos esse pedido formal.


Depois desse pedido formal de extradição, o que acontece? Quanto tempo a Justiça suíça tem para analisar esse pedido?

Depende de cada caso. Uma vez que recebermos o pedido oficial, enviamos para a pessoa em detenção, ela será ouvida e terá oportunidade de fazer uma declaração. E baseado na oitiva, no depoimento e no pedido formal de extradição, o nosso departamento analisará se o pedido atende às condições para extraditar a pessoa.


O senhor pode revelar qual dos detentos inicialmente concordou com a extradição simplificada?
Não posso revelar essa informação.


A Justiça suíça tem uma data, um prazo final, para analisar esse pedido de extradição?Não. Não temos uma data, porque talvez tenhamos de pedir informações complementares, a pessoa ou seus advogados podem pedir um prazo maior para fazer suas declarações, então não existe uma data para tomar a decisão.


José Maria Marin tem 83 anos. A situação é a mesma para ele? Circulam informações de que seus advogados poderiam tentar um pedido de prisão domiciliar. Isso é possível?Os detentos têm a oportunidade de apelar contra nosso mandado de extradição, em 10 dias, e a Corte Penal Federal vai decidir se continuam em detenção ou não. Só posso afirmar que a detenção é a regra durante um processo de extradição. Essa regra permite que a Justiça suíça preencha as condições necessárias para a extradição de acordo com os tratados internacionais.


Mas há nas leis suíças algum dispositivo que permita a um detento que aguarda extradição pedir prisão domiciliar por conta de problemas de saúde, idade ou outras condições especiais?

Se for necessário, claro que temos médicos na prisão para cuidar dos detentos e, se não for possível prestar o cuidado adequado na prisão, a pessoa pode ser transferida para um hospital penitenciário.


E como funciona essa procedimento de apelação contra a extradição?
Os detentos têm a oportunidade de entrar com uma apelação contra a extradição em 10 dias, ou seja, até o dia 8 de junho. Nesse caso, a corte decide se vão continuar sob custódia, ou vão ser liberados.


Os detentos têm acesso às suas famílias, advogados? Qual o contato permitido com o mundo exterior à prisão?
Eles têm contato com os advogados, suas esposas, e com representação do consulado.


É a corte suíça que decide sobre a extradição, ou os americanos?

As autoridades americanas não são parte no processo de extradição. Nós decidimos se as condições foram ou não preenchidas.


Sendo a investigação conduzida pelas autoridades americanas, se a corte suíço, por exemplo, negar o pedido de extradição dos EUA, toda a investigação é usada para um processo aqui na SUíça?

Se chegarmos à conclusão de que não é possível extraditar essas pessoas, eles serão liberados.


O que a Suíça precisa de informação para analisar os pedidos?Os Estados Unidos precisam formalizar o pedido de extradição, que entrará em mais detalhes sobre o mandado de prisão americano, e, baseado nisso, examinaremos se os fatos descritos nesse pedido seriam também passíveis de punição na Suíça. Se forem, concederemos a extradição. Mas não examinamos se a pessoa é culpada ou cometeu essas infrações, só examinamos se essas infrações seriam também passíveis de punição na Suíça.


Os sete presos foram para a mesma prisão ou estão em locais diferentes?Os sete detentos estão em prisões diferentes na região de Zurique. Basicamente posso dizer que são tratados como todos os demais detentos. Não posso dar mais detalhes.


Por que eles foram presos na Suíça?É uma cooperação entre a Suíça e os Estados Unidos, estamos dando suporte à investigação americana, temos um acordo bilateral de extradição e assistência internacional, e esse tratado regula as obrigações de cooperar quando as condições para essa cooperação são preenchidas.


No Brasil e diversos outros países, usualmente as autoridades divulgam o local onde estão os detentos. Por que isso não ocorre na Suíça e a informação é mantida em sigilo absoluto?Por um lado por segurança, por outro por proteção da privacidade.


O senhor disse que os prisioneiros têm 10 dias para apelar. Os sete já apelaram?Até agora nenhuma apelação foi submetida à corte. Mas eles têm tempo até 8 de junho, pois não contamos o fim de semana.


E quanto tempo leva para se analisar essas apelações?
Não posso falar pela corte. Mas a questão da detenção ou não pode ser decidida em algumas semanas. O procedimento de extradição deve durar cerca de seis meses. Depende do caso. Se a pessoa consente, é rápido. Mas se contesta a extradição, leva mais tempo.


O senhor pode revelar quando exatamente os Estados Unidos enviaram o pedido de prisão?Creio que foi no dia 21 de maio e no dia 22 emitimos o nosso mandado de prisão. Mas é claro que tivemos contatos preliminares sobre as investigações.


Há dois processos, há três meses a Justiça suíça começou a investigar o processo de escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022. O senhor pode dar alguma informação sobre este processo, se Joseph Blatter será ouvido?

Não posso, pois são dois procedimentos separados e esse não é conosco.


Para deixar claro, a apelação contra a extradição pode ser feita até 8 de junho, mas os EUA têm 40 dias para formalizar o pedido. Essas datas não batem, eles poderiam ser liberados...
Sim, poderiam, mas nós, como disse, e os detentos, temos oportunidades de apelar. Eles têm até o dia 8 de junho para apelar contra a prisão. E os EUA têm 40 dias para formalizar o pedido de extradição.


No caso de o recurso dos detentos ser aceito e eles serem liberados enquanto os EUA ainda não enviaram o pedido formal de extradição, o que acontece?

O problema é que decidimos colocar regularmente esses detentos sob custódia, pois há, é claro, o risco de que voem (para fora do país). Não posso antecipar a decisão da corte, mas há uma regra e a jurisdição. Não posso dizer agora que vamos apelar contra a decisão porque precisamos saber os fundamentos. Só posso dizer em tese que, se a corte decidir, no fim de junho, que a pessoa deve ser liberada, temos a oportunidade de lançar um recurso na Suprema Corte. Lembro de um caso, do ex-ministro russo, e naquela vez apelamos contra a decisão de libertá-lo e essa apelação incluiu um efeito suspensivo, para que permanecesse sob custódia até que a nossa apelação fosse julgada.


FONTE:
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