Gustavo Noronha, o diretor jurídico do Botafogo (Foto: Marcelo Baltar)
A
paixão pelo Botafogo vem de berço, cresceu nas arquibancadas de Caio
Martins e hoje, mais do que nunca, é coisa séria. “Amador” com orgulho, o
advogado Gustavo Noronha, 40 anos, aparece pouco, mas tem voz ativa em
General Severiano. Diretor jurídico, vem há pouco mais de dois anos
ajudando na reestruturação alvinegra.
No final de 2014, ao lado
do presidente Carlos Eduardo Pereira, encontrou um clube rebaixado para
Série B, atolado em dívidas, com quatro meses de salários atrasados e
sem credibilidade no mercado. O jeito foi recomeçar praticamente do
zero, sem abrir mão da política de pés no chão ou dar um passo maior que
as pernas.
- A gente era chamado de amador, né? "Entraram os
amadores". Com muito orgulho, que bom que nós somos amadores porque o
estatuto do clube não permite que tenha um gestor remunerado, e nós
somos de fato amadores. Mas com uma gestão profissional, uma forma de
encarar a coisa como se administra uma empresa.
O recomeço foi
lento, mas em dois anos apresentou resultados. De volta à elite do
futebol brasileiro e com o passaporte carimbado para Libertadores, o
Botafogo resgatou a confiança de todos, especialmente de seu torcedor. E
hoje, já pode sonhar com investimentos mais altos, como a possível
contratação do cobiçado Walter Montillo.
Em pouco mais de uma
hora de bate papo com o GloboEsporte.com em seu escritório de advocacia
no Centro do Rio de Janeiro, Gustavo Noronha falou sobre as dificuldades
no início da atual gestão, sobre os obstáculos ao longo desses dois
anos, as negociações frustradas e as que deram certo, o "achado" de
Carli, medalhões oferecidos e especialmente sobre o planejamento para
2017.
REESTRUTURAÇÃO DO CLUBEA gente
começou, voltando lá em novembro e dezembro de 2014, quando a gente
ganhou a eleição e pegou o clube um tanto destroçado. Rebaixado,
salários atrasados há muitos meses, contratos sendo rompidos
judicialmente... Então foi muito difícil aquele momento porque nós
tínhamos poucos jogadores para contar, e os poucos não estavam
motivados. Imagina, com três, quatro meses de salário atrasado ninguém
se motiva mesmo. Havia uma incógnita da capacidade financeira para o ano
seguinte, e o que a gente mais ouvia era: "Quando eu vou receber?"
Lembro que na reapresentação do elenco em Várzea das Moças o Cidinho,
que estava em recuperação, como eu o conhecia há mais tempo, ele vinha e
falava: "Pô, doutor, quando eu vou receber". É chato ouvir isso. Eu sou
empresário também, sou sócio de um escritório de advocacia grande, a
gente tem cento e poucas pessoas aqui. Eu fico imaginando se eu atrasar o
salário um dia se vou ter coragem de olhar para a cara das pessoas. Aí
você assume uma gestão com o clube devendo quatro meses é difícil olhar
para as pessoas. Chegava na roleta e tinha vergonha de passar pelo
porteiro. Era um momento muito complicado.

Botafogo 2015 (Foto: Vitor
Silva / SSpress / Botafogo)
HAVIA MUITA DESCONFIANÇA?Muita.
Segurança, motorista, departamento de futebol, todo mundo com salário
atrasado. É muito desconfortável. Aí a gente foi, com muita ajuda do
Carlos Alberto Torres, René Simões e do (Antônio) Lopes, que são pessoas
fora de série e têm uma reputação no futebol. Eles entenderam o nosso
momento, acreditaram na nossa credibilidade, empenharam também a palavra
para trazermos jogadores, e a gente conseguiu apostar em alguns que
estavam conosco que valia a pena continuar e acreditar no projeto.
Tivemos uma desconfiança muito grande por parte da imprensa, da torcida
em um primeiro momento, mas também tivemos apoio. Aquele sentimento de
que pessoas vinham sem outros interesses vindo para ajudar de fato. É
aquele negócio, no dia que eu não estiver aqui no escritório pode
começar a desconfiar de mim: "Esse cara está tirando dinheiro da onde?"
Ele exerce um cargo não remunerado no Botafogo e não está indo
trabalhar, alguma coisa está errada. Então é uma ginástica danada para
conciliar, tanto para mim, quanto para o Carlos Eduardo, o Cacá, as
nossas atividades profissionais com o clube, onde a gente exerce uma
função ali apaixonada e livre de outros interesses. A gente era chamado
de amador, né? "Entraram os amadores". Com muito orgulho, que bom que
nós somos amadores porque o estatuto do clube não permite que tenha um
gestor remunerado, e nós somos de fato amadores. Mas com uma gestão
profissional, uma forma de encarar a coisa como se administra uma
empresa
O
Tomas Bastos por exemplo, quando veio o J. Malucelli falou: "Olha, é um
ano, não dou nem um dia a mais". E a gente estava em uma situação muito
frágil naquele momento. Não dava nem tempo, a gente tinha três semanas
para montar um time. É diferente de hoje que a gente está planejando
2017 desde setembro, tem quatro meses para levar uma negociação
Gustavo Noronha
MONTAGEM DO ELENCOA
gente foi colocando muito pé no chão na montagem desse elenco. Não
dando nenhum passo que a gente não pudesse pagar. Primeiro grande passo
foi a renovação com o Jefferson, que teve uma importância enorme na
campanha na Série B. Isso passou também uma credibilidade para o
mercado: Se o goleiro da seleção brasileira vai ficar é porque as
pessoas são sérias e porque o projeto tem pé e cabeça. Isso deu para a
gente um respaldo de começar o trabalho de maneira consistente. Aí
trouxemos alguns bons jogadores, lembro bem a montagem desse elenco:
Diego Jardel, Navarro, Renan Fonseca... Alguns deram muito certo, outros
nem tanto, mas também foram importantes. Mas nós não tínhamos naquele
momento a capacidade de fazer contratos muito longos. O Tomas Bastos por
exemplo, quando veio o J. Malucelli falou: "Olha, é um ano, não dou nem
um dia a mais". E a gente estava em uma situação muito frágil naquele
momento. Não dava nem tempo, a gente tinha três semanas para montar um
time. É diferente de hoje que a gente está planejando 2017 desde
setembro, tem quatro meses para levar uma negociação. Faz uma proposta,
espera um retorno. O pé no chão deu muito certo porque a gente vê aí que
onde atrasa salário a coisa não vai. Esse ano já foi uma remontagem
muito mais tranquila do que foi em 2015 porque já conseguiu alongar os
contratos, pensar mais à frente. Alguns vieram ainda com contrato de um
ano, como a maioria dos estrangeiros, mas os jogadores que a gente já
imaginava na largada ou que o rendimento foi muito bom a gente já
prolongou com multas altas. Carli ampliamos para três anos, Camilo até
2018... Isso dá um conforto para o clube. E a gente está acreditando que
essa montagem para 2017 vai ser mais tranquila porque já temos uma
espinha dorsal.
POLÍTICA DE CONTRATAÇÕESNa
nossa maneira de ver... Óbvio que isso às vezes muda (risos). Tudo na
vida tem uma parcela gerenciável e uma não gerenciável. A não
gerenciável não depende de você, então esquece. A gerenciável você vai
tentando manejar. Dentro do que é gerenciável, a gente imagina fazer
menos apostas, ou seja, trazer menor quantidade de jogadores, e mais
contratações cirúrgicas, posições-chave e com mais chances de dar certo.
Foi o caso do Roger, que a gente examinou há mais tempo, o Jair
(Ventura) gosta, e a gente contratou. Vamos seguir essa linha de
contratações cirúrgicas. Fizemos o mesmo com Gatito e João Paulo, por
exemplo.
BALANÇO DOS GRINGOSO balanço está
mais ou menos dentro do esperado. Gostaríamos que a performance tivesse
sido melhor da maior parte deles, mas, enfim, futebol e a vida são
assim. Mas o Carli foi um acerto muito grande, jogador que já virou
ídolo da torcida, está super bem. Alguns, como o caso do Salgueiro, não
funcionaram, tirando aquele gol sobre o Flamengo que já pagou o
ingresso. Acontece, não é matemática. Alguns foram apostas, caso do
Lizio, jogador muito habilidoso, mas acho que não entrou no ritmo que o
futebol brasileiro exige. Sensação que a gente teve é que ele não se
adaptou. Fizemos algumas contratações no mercado nacional que também não
deram certo. Fala-se muito dos estrangeiros, mas várias que a gente fez
no mercado nacional também não deram certo. Casos do Maranhão,
Marquinho, Aquino... Não renderam aqui. Dentro do volume que a gente
contratou e os que deram certo, a proporção é quase a mesma
(estrangeiros e brasileiros). Foi uma estratégia do momento,
precisávamos de mais contratações e não tínhamos muito dinheiro. O
mercado brasileiro é caro e competitivo demais. A gente viu agora, nós
tentamos o Keno e perdemos para o Palmeiras. Por aí já dá para ver que
não é fácil contratar no Brasil. Vamos tentar algumas no mercado
nacional esse ano, estamos com algumas em andamento, mas não dá para
descartar o mercado sul-americano, principalmente argentino, uruguaio,
chileno... Estamos observando e vamos acabar trazendo alguém para tentar
de novo.

Montillo e Diego Tardelli Shandong
Luneng (Foto: Divulgação / AFC)
COMO CHEGARAM AO NOME DO MONTILLO?A
gente mapeou alguns nomes que pudessem, na nossa maneira de ver, ajudar
a assumir responsabilidade na temporada e ajudar na transição da defesa
para o ataque. O meio precisava. Internamente, surgiu o nome do
Montillo. Foi um dos primeiros nomes que aparecera
Eu
só gosto de dizer que está perto quando assina. As conversas são boas.
Apresentamos a proposta e o projeto, eles compraram a ideia. Mas só falo
que está certo com a assinatura.
Noronha, sobre Montillo
AS INFORMAÇÕES SÃO QUE ELE ESTÁ MUITO PRÓXIMO...Eu
só gosto de dizer que está perto quando assina. As conversas são boas.
Apresentamos a proposta e o projeto, eles compraram a ideia. Mas só falo
que está certo com a assinatura.
O QUE MUDA PARA VOCÊS A CLASSIFICAÇÃO PARA A LIBERTADORES?Acho
que muda a percepção do mercado em relação ao Botafogo. O trabalho ser
coroado por uma vaga é sempre uma alegria. Talvez mude o interesse dos
jogadores pelo fato de estarmos na Libertadores. É um chamariz. Muda
muito a confiança da torcida. Ela está mais confiante, o ano foi bom,
isso pode repercutir no fato dela abraçar o clube. O Botafogo precisar
ser abraçado pela torcida. Na verdade, todos os clubes. Isso é um passo
adiante. A torcida abraçou o time com certa desconfiança em 2015, nesse
ano também, mas acho que em 2017 vai abraçar o clube de uma maneira mais
alegre. Isso é bom. Positividade atrai positividade.
Gustavo Noronha (Foto: Vitor Silva
/ SSpress / Botafogo)
COMO FUNCIONA A PARCERIA COM GERARDO CANO?Nós
conhecemos o Gerardo quando ele nos apresentou o Navarro. Já existia
uma relação com a gestão anterior, quando ele trouxe o Lodeiro. Temos
uma boa relação, mas não chega a ser de fato uma parceria. É um agente
que costuma cumprir a palavra. No futebol, isso não é muito comum.
Alguns cumprem, e as coisas andam melhor. Tratamos com outros
empresários sérios. A tendência é ter relações de vida longa com pessoas
sérias. Aqui no Botafogo temos uma grande preocupação com a seriedade
das pessoas. Pisou na bola uma vez, não pisa mais no clube. Jogamos
muito aberto
O SUCESSO DO NAVARRO, QUE É DO GERARDO, INFLUENCIOU NESSA APOSTA NOS GRINGOS?Funcionou
muito bem o Navarro, né? Uma pena, perdemos para o mercado mexicano,
ele foi ganhar lá três vezes mais do que ganhava aqui. Não deu para
segurar.
COMO FUNCIONA A CONTRATAÇÃO DE GRINGOS?Não
tem uma semana que passe que nosso departamento de análise, desempenho e
inteligência não examine um jogador sul-americano. Procedimento é
sempre o mesmo: a gente recebe uma indicação, ora já estamos procurando,
ora um empresário ou conselheiro indicou. Ou até mesmo torcedor que
indicou (risos), acontece também. A gente vai: "Esse aí está valendo a
pena, vamos olhar". Aí nosso departamento de inteligência busca as
informações. Usamos um sistema avançado onde os caras monitoram o
jogador, a posição dele dentro do campo, não só no scout, mas veem no 1 a
1 ofensivo, no 1 a 1 defensivo. Só lances dele, aí fazem um relatório,
não é conclusivo, contrata ou não, isso depende de outras
circunstâncias, mas mostra se as características dele que foram
"vendidas" ao clube se confirmam e tal. Em cima disso a gente tenta
errar o menos possível, mas erros sempre acontecem.
QUEM DECIDE A CONTRATAÇÃO?É
uma decisão colegiada com o presidente, o Cacá, o Lopes, eu, o Luis
Fernando que é o vice-presidente executivo, o Jair e a turma da análise
de desempenho. A gente sempre inclui o profissional que fez o desempenho
para ele ser ouvido também.
MAS VOCÊ TEM PAPEL MAIS DIRETO NA CONTRATAÇÃO DE ESTRANGEIROS?Como
eu trabalho muito com gente internacional aqui no escritório, dou muita
palestra nesses países. Argentina, Uruguai... Mas na minha área, que é a
tributária, advocacia de impostos. Eu falo espanhol, isso facilita um
pouco. Talvez só por essa razão eu acabo me envolvendo um pouco mais.
Quando liga um empresário para o Lopes falando espanhol, ele: "Gustavo,
vem cá conversar com ele" (risos). Mas é muito mais casual do que outra
coisa. No procedimento padrão, o Lopes faz a negociação, e a coisa chega
para mim em uma parte mais jurídica, de elaboração de contrato. Às
vezes a gente divide um pouco a atribuição de negociação em si, mas
normalmente eu vejo mais o contrato.
Gustavo Noronha foi um dos responsáveis pela chegada de Carli (Foto: Botafogo)
O "ACHADO" DO CARLIO
Carli foi uma indicação de um conselheiro nosso, do Rodrigo Farreh, que
acompanha muito o mercado argentino. Nem sei por que razão, mas ele
assina o Campeonato Argentino, assiste a todos os jogos, e de vez em
quando ele dá uma assim: "Gustavo, vê o fulano de tal". Foi assim com o
Carli: "Olha, tem um zagueiro lá no Quilmes que já acompanho há muitos
anos e é bom jogador". Tinha tido uma contusão, ficou um tempo no banco,
mas foi titular a vida inteira e tal. Mandamos para o analista de
desempenho, e ele aprovou. Só que o Carli não tinha sido oferecido para a
gente, diferente dos outros. A gente entrou em contato com um agente
que conhece muito o mercado sul-americano, foi quem fez o contato com
ele, e daí a coisa andou. Teve um problema do Quilmes lá com a
transferência, tinha uma liminar contra o clube impedindo qualquer
transferência internacional. Eles estão até hoje em uma crise, mas
naquela ocasião estavam com vários credores na praça. Um deles conseguiu
uma liminar que a AFA foi intimada por um juiz. Ele já estava aqui
(risos) foi um momento difícil, tivemos que contratar um advogado lá
para entender a situação e discutir com a AFA, graças a Deus as coisas
correram bem.
EXISTEM NOVOS "CARLIS" A SEREM DESCOBERTOS?(Risos) Sem dúvida, sem dúvida.
VOCÊS CHEGAM A IR VER OS GRINGOS IN LOCO?Em
alguns casos sim, a gente manda o analista para ir ver o jogo. Mas hoje
a informação... Esse programa pega as informações das Séries A, B e C
do Brasileiro, do Argentino... Às vezes a gente precisa ir muito mais
ara conversar com as pessoas, depende se tem acesso ao clube, mas só
para ver o jogo em si não tem muita necessidade.
Esteban Cambiasso Leicester City (Foto: Getty Images)
É POSSÍVEL TER UMA NOVA ESTRELA COMO O SEEDORF?Talvez.
A gente trabalha com esse cenário, mas com pé no chão. Depende muito da
negociação, da aposta do jogador... Tem um projeto do clube para o
jogador, e do jogador para o clube também. A gente não trabalha com a
hipótese de trazer um cara que custe R$ 1 milhão por mês e que não saiba
como pagar. Mas a gente trabalha com o cenário de ter um jogador mais
tarimbado, digamos assim, que possa atrair a torcida e tal, e que ele
aposte no projeto do Botafogo. Em algumas conversas que temos tido com
bons jogadores eles têm perguntado isso: "Mas quais são os planos para o
jogador?" Acho que hoje tem essa consciência em alguns empresários, e
de alguns jogadores, de como ele vai encaixar no elenco. Por exemplo: a
gente hoje precisa de um bom jogador de meio campo para conversar com o
Camilo, os nossos esquemas sobrecarregam o Camilo um pouco porque a
gente acaba tendo volantes, atacantes e ele fica ali no meio um tanto
sozinho. Alguns nomes que estamos vendo estão enxergando isso. Sem fazer
loucura, pés no chão, mas tentando mostrar um projeto. Essa frase ficou
meio que com o (Vanderlei) Luxemburgo porque tudo era "projeto",
"projeto" (risos). Mas é um pouco por aí mesmo. Primeiro mostrar a nova
realidade do clube, que a gente honra com o que combina, e pensar em
menos quantidade e mais qualidade.
POR QUÊ RECUSARAM O CAMBIASSO?No
final a gente achou que a aposta era muito cara para o nosso momento.
Jogador de idade mais avançada... É difícil fazer esse tipo de balança,
né? Achamos que era um risco muito alto para o tamanho da grana que
iríamos ter que gastar.
E O BARCOS?Barcos a gente tentou no passado. Tentamos o Viatri também, não deu certo.
O RAUL MEIRELES FOI OFERECIDO TAMBÉM?Não. Tem muita coisa que aparece que a gente acha que alguém tentou plantar.
JOGADORES QUE VOLTAM DE EMPRÉSTIMO SERÃO APROVEITADOS?Estão
no elenco, né? A gente vai ter que avaliar, saber se reempresta... Vai
depender um pouco da montagem do elenco, posição que estiver carente...
Vão ser reavaliados.
PRIORIDADESAcho que um
10 e um 9 a gente vai precisar. Precisa de mais um atacante ali, talvez
um que jogue pelos lados... Algumas coisas estão um pouco incertas
ainda, temos que ver se o Neilton fica, a lateral esquerda é um problema
porque a gente não tem ainda definida, o Victor (Luís) talvez volte
para o Palmeiras, mas a gente está tentando manter.
Ao
mesmo tempo é um sonho e um pesadelo. Quando a gente assumiu a gestão,
sem brincadeira, não é politicagem ou coisa do gênero, mas eu vi uma
criança na rua com a camisa do Botafogo e senti um peso nas costas.
Botafogo na Segunda Divisão, a gente naquele momento meio que sem saber
para onde ir, não tinha dinheiro, o clube estava devendo todo mundo,
cheio de penhora, Ato Trabalhista suspenso... Passava por ela na rua,
obviamente ela não sabia quem eu era, até hoje não sabem porque minha
função é muito mais interna, e eu ficava pensando assim: "Olha o tamanho
da responsabilidade". Esse é o pesadelo
Gustavo Noronha
PAPEL DO ANTÔNIO LOPESÉ
um cara sensacional. Super correto, tem uma presença de vestiário
importante, tem uma história que fala por ele. Um profissional que já
viu um pouco de tudo. Em vários momentos difíceis ele foi muito
importante. Você vê a importância do profissional quando a coisa vai
mal. É difícil você distinguir o bom para o mau profissional quando está
tudo bem. Aqueles momentos lá em que estávamos mal no Brasileiro,
fizemos aquela mini-temporada lá em Várzea (das Moças). Como eu moro em
Niterói, ia muito lá. Era meu caminho do trabalho. Aí ficava o Lopes
naquela salinha de vidro em cima, naquele campo lá de trás. Eu entrava:
"E aí, Lopes, como que está?". Ele olhava: "Tudo certo. Fica tranquilo
que vai dar certo". Ou não, aí falava: "Momento precisando dar uma
chacoalhada, mas se fizer isso assim, assim, assado vai funcionar". A
experiência de um cara que já viu muita coisa, indo bem ou mal, é muito
importante. Eu não sou um cara do futebol, sou advogado. Então você
precisa ter os profissionais e colher informações daqui e dali para
tomar decisão. Mesma coisa com o Cacá, o presidente... A gente não é do
futebol, embora sejamos fanáticos e acompanhamos futebol a vida inteira.
Tem coisas que não dá para errar, você sabe se vai ou não. Outra coisa é
o clima, do trabalho render ou não... A importância do Lopes é enorme, e
às vezes a torcida não vê mesmo porque é um trabalho muito silencioso.
ASSIM COMO O DE VOCÊS...Também,
muito silencioso. Quando dá certo é sorte, quando dá errado a gente é
incompetente (risos). "Botafogo deu sorte", é o que a gente mais tem
ouvido.
COMO INGRESSOU NA POLÍTICA DO BOTAFOGO?Eu
sou sócio do Botafogo desde os 9 anos. Mas eu não era politicamente
ativo, sempre trabalhei muito. Aí em 2003, o Botafogo estava na Segunda
Divisão, e eu comprei uma cadeira no Caio Martins para a temporada, na
gestão do Bebeto (de Freitas). Ele fez um plano de sócio-torcedor e
tinha uma cadeira VIP que era permanente. Meu nome está até hoje lá, fui
esses dias em um jogo do sub-20 e vi que os decalques daquela época
ficaram nas cadeiras. Os meus vizinhos de cadeira na época eram todos
conselheiros, envolvidos com política. Eu era um torcedor comum,
apaixonado, que ia a todos os jogos, até hoje vou a quase todos. E esses
caras depois começaram a falar: "Você é um cara que devia estar na
política do Botafogo, gente nova, sangue novo, são sempre os mesmos".
Essa história ficou na minha cabeça, realmente eu podia tentar ajudar.
Esse grupo depois se uniu e disputou a eleição, a gente perdeu contra o
Bebeto na ocasião.
COMO CHEGOU A DIRETOR JURÍDICO DO CLUBE?Surgiu
a história do Maurício (Assumpção). Ele nem seria o candidato, seria o
Mantuano, mas por algumas conjunturas políticas apareceu o nome do
Maurício. Ele meio que caiu de para-quedas. Para ter ideia, essa eleição
foi em 2008 e eu conhecia a maioria das pessoas do grupo desde 2003, e o
Maurício eu conhecia há um mês. Eu era um nome para ser o vice jurídico
do Maurício porque teve uma história na época do Bebeto em que ele
colocou para votar um monte de sócios com menos um ano de associação. O
Estatuto do Botafogo só deixa votar se tiver um ano. Eram uns 150, 200
sócios e eles não puderam votar porque eu entrei com uma ação e consegui
uma liminar. Talvez um pouco motivado por essa confusão toda me
indicaram para vice jurídico e aceitei. Só que no primeiro ano a gente
teve um racha na administração, brigou com o Maurício, e eu renunciei.
As divergências eram muito profundas, e eu fui ser oposição. Perdemos a
eleição quando o Maurício foi reeleito. Pelo Estatudo, a chapa que perde
elege 14 conselheiros para o Conselho Deliberativo, e eu fui um desses.
Fizemos uma oposição bem presente, acompanhamos os principais desmandos
que acabaram desaguando nessa confusão toda que aconteceu. E a gente
estava avisando ó (estala os dedos), há muito tempo. E quando a gente
ganhou essa eleição, eu estava em uma fase de carreira aqui no
escritório que não conseguiria o tempo que o Botafogo merece para ocupar
o cargo de vice jurídico. O Carlos Eduardo perguntou onde eu poderia
ajudar. Falei: "Acho que posso ajudar no futebol porque já fui vice
jurídico, conheço como funciona o regime dos contratos, me dou muito bem
com o Aníbal (Rouxinol, advogado do clube)"... Eu acho que posso fazer
isso, comandar o departamento jurídico dentro do futebol cuidando da
parte disciplinar, que são os tribunais esportivos, a gente discute a
estratégia e como fazer, e cuidar dos contratos com os jogadores.
Revisar os contratos, tomar cuidado com certas questões... Ele
concordou, achou uma ótima ideia, e estamos aí tentando ajudar.

Estátua de Jairzinho no escritório de Gustavo
Noronha Botafogo (Foto: Marcelo Baltar)
PLANOS PARA O FUTURO NO BOTAFOGOPenso
em continuar ajudando. Nunca fui um cara ligado a cargo. Sou plenamente
realizado na vida pessoal e profissional, não sou do tipo que precisa
de cargo para se achar importante. Tanto que não tive nenhuma dúvida
quando entreguei a renúncia ao Maurício, e nem tive vaidade quando o
Carlos Eduardo perguntou o que queria ser. Falei: "Carlos, não quero ser
nada, quero te ajudar. Não seu preocupe se você vai me dar um cargo de
vice-presidente, de diretor, de servente..." Não faço planos. Muita
gente pergunta se eu almejo ser presidente do Botafogo um dia. É aquele
negócio, um dia a gente sempre acha que é uma possibilidade (risos), de
tentar ajudar mais, mas hoje, realmente, com o volume de trabalho que
tenho aqui não tenho condição. Minha mulher, minha filha, meus sócios,
todos me matam (risos). Para o futuro, a médio, longo prazo, não
descartaria a possibilidade.
TRABALHO DOS SONHOS...Ao
mesmo tempo é um sonho e um pesadelo. Quando a gente assumiu a gestão,
sem brincadeira, não é politicagem ou coisa do gênero, mas eu vi uma
criança na rua com a camisa do Botafogo e senti um peso nas costas.
Botafogo na Segunda Divisão, a gente naquele momento meio que sem saber
para onde ir, não tinha dinheiro, o clube estava devendo todo mundo,
cheio de penhora, Ato Trabalhista suspenso... Passava por ela na rua,
obviamente ela não sabia quem eu era, até hoje não sabem porque minha
função é muito mais interna, e eu ficava pensando assim: "Olha o tamanho
da responsabilidade". Esse é o pesadelo. A parte boa é você estar em
contato, podendo ajudar, quando funciona é muito prazeroso. O Carli, por
exemplo: briguei para trazer ele, deu aquela m* na Argentina, falei que
ia segurar aquele negócio. E o cara dá certo, torcida adora,
performando super bem. Aí é o lado legal. Tem uma frase que o (Manoel)
Renha (gerente geral da base) usou uma vez que é muito legal. Quando
fomos campeões brasileiros sub-20, liguei para dar os parabéns e ele
disse: "Gustavo, em um país onde tem tanta gente fazendo tanta coisa
errada, a gente fazer as coisas de maneira séria, honesta, competente
não pode dar errado. Isso ficou na minha cabeça. Estamos fazendo tudo
com muito carinho, sem nenhum outro interesse que não seja do Botafogo.
Espero que o Cara lá em cima olhe para essa turma e diga: "Esses não
merecem dar errado" (risos).
PAIXÃO PELO BOTAFOGODe
família, todo mundo. O meu pai, avô, bisavô... Tem até uma história
curiosa. O Botafogo foi fundado por garotos que estudavam no Colégio
Alfredo Gomes, e quando eles estavam combinando a fundação do Botafogo,
trocavam bilhetes marcando encontros e tal, durante as aulas. Em um
determinado momento, os livros do Botafogo contam esse episódio, um
professor de álgebra interceptou um desses bilhetes. E esse professor
era irmão do meu bisavô (risos). Ele (Júlio Cesar de Noronha) era
General do Exército Brasileiro e foi dar aula depois que passou para a
reserva. Aí tem a história e tem a lenda, né? Dizem que ele deu uma
dura num primeiro momento, mas depois incentivou, apoiou, achou legal.
Enfim, a família sempre esteve ligada ao clube desde o início. Meu avô
era um torcedor fanático, de ouvir todos os jogos em um radinho verde de
pilha. Meu pai hoje ajuda a gente na diretoria administrativa do clube e
sempre foi fanático. Todos os meus aniversários sempre foram do
Botafogo. Até hoje tem hino. Meu apelido nas peladas sempre foi
“Botafogo” ou “Fogão”, porque em regra sempre jogo uniformizado. Eu
tive uma infância em um período de jejum, então fui campeão pela
primeira vez com 13 anos, aquele título sobre o Flamengo em 89. Estou
com 40 agora. Mas do 0 aos 13 foi complicado. E lá em casa tinha fita
cassete do Garrincha, Nilton Santos... Era a forma de cultivar a
grandeza do Clube, além, é claro, de ir a todos os jogos que podíamos.
Uma época muito complicada, em muito sustentada pela rivalidade nos
clássicos, onde éramos competitivos até nos dias de chumbo.
FONTE:
http://globoesporte.globo.com/futebol/times/botafogo/noticia/2016/12/amador-com-orgulho-diretor-do-bota-destrincha-reestruturacao-e-planos.html