Recordista de
jogos pelo Corinthians, ex-lateral é funcionário da prefeitura de São
Sebastião e crê que crise no time acabaria se jogadores reagissem: 'A
coisa está feia'
Por Filipe RodriguesSão Sebastião, SP
Wladimir, lateral-esquerdo ex-Corinthians, hoje trabalha em São Sebastião (Foto: Filipe Rodrigues)
Janeiro
de 1982. Após o rebaixamento para disputar a Taça Prata, à época
equivalente à Série B do Campeonato Brasileiro, jogadores e dirigentes
do Corinthians se encontram para uma reunião.
Sociólogo e dirigente do
Timão, Adilson Monteiro Alves dá a voz para que cada jogador dê seu
ponto de vista sobre o que está errado. Entre os jogadores está o
lateral-esquerdo Wladimir, atleta que mais vestiu a camisa do
Corinthians na história, com 803 jogos disputados durante duas
passagens, entre 1972 e 1987. Ali começa uma lavação de roupa suja com
críticas para questões estruturais e individuais no ambiente alvinegro.
Diante dos problemas levantados, a solução sugerida pelo próprio Adilson
foi ousada para um país que vivia assolado pela ditadura: as decisões
do clube seriam decididas por votos de jogadores e funcionários. Cada
atleta teria voz, mas, para isso, teria de corresponder em campo. O
movimento recebeu o nome de "Democracia Corintiana".
Wladimir
ainda lembra daquela reunião e do clima no Corinthians após o
rebaixamento para a disputa da Taça Prata. Para ele, a situação é
semelhante à que o clube vive hoje, com constantes protestos da torcida
e, apesar do talento técnico dos atletas, a falta de um bom desempenho
em campo.
Prestes a completar 60 anos, o
ex-lateral hoje é funcionário da prefeitura de São Sebastião, no litoral
norte de São Paulo. Atua como porta-voz do prefeito Ernane Primazzi em
conversas com deputados e outros políticos para projetos envolvendo o
município de pouco mais de 70 mil habitantes. Apesar do novo cargo,
andar com Wladimir na rua é ser parado a cada passo para ouvir uma
análise sobre a situação do Timão, a relação conturbada entre time e
torcida e o que precisa ser feito. Para ele, a solução é dar poder e
responsabilidade para que os jogadores se unam e definam os rumos do
clube.
Eles têm que achar a forma para reagirem. Está feia a coisa
Wladimir, sobre atual fase do Corinthians
– Era
uma situação adversa. Tínhamos caído para a Taça de Prata. Isso para um
clube com a grandeza do Corinthians é mortal. Passamos a refletir sobre
o que estava acontecendo e o que tinha acontecido. A partir disso, cada
um começou a expor o que estava acontecendo. Esse exercício de
participação foi essencial para a gente denominar "Democracia
Corintiana". Tínhamos o prazer de participar das decisões. Pela
experiência, sabemos que a resposta está lá dentro. Não somos nós de
fora que vamos sugerir. Eles têm que achar a forma exata para reagir.
Está feia a coisa - afirma o lateral, que tem 32 gols marcados e quatro
títulos paulistas conquistados pelo clube alvinegro.
Dos 15
anos em que atuou no Corinthians como lateral, Wladimir chegou a jogar
com costela quebrada, tornozelo torcido e febre de 40 graus. Amor que
começou antes de o jogador se profissionalizar, durante uma excursão à
Europa.
Wladimir em seus primeiros anos de Corinthians
(Foto: Agência Estado)
Antes
de estrear como profissional pelo Corinthians, Wladimir foi chamado
para uma excursão pela Europa, onde o time jogaria contra Besiktas e
Galatasaray, na Turquia, e contra o Olympiakos, na Grécia. A excursão
também passou por Iugoslávia, Itália e Espanha. Para surpresa do então
juvenil, que tinha 18 anos, tanto nos locais dos jogos, quanto nas
escalas de avião, o elenco corintiano foi abordado por torcedores do
Timão. A experiência deu ao jogador uma noção do time que estava
defendendo.
– O amor pelo time foi amadurecendo a
partir do momento em que defendíamos o
Corinthians e vivíamos a mística. Fiz uma excursão pela Europa e em
todos os países havia corintianos, que vinham nos dar boa sorte e
mostrar que pagavam a taxa de associado ao clube. Isso tudo faz do
Corinthians um dos
maiores do mundo, sem dúvida.
Após a viagem, Wladimir ainda
teve que esperar seis meses para ter chance de estrear no profissional. A
cena ainda está fresca na memória do lateral-esquerdo. Foi em 5 de
junho de 1973, contra o São Bento, pelo Campeonato Paulista. Antes de
entrar em campo, as pernas do garoto tremeram. O duelo, no Pacaembu,
abriu o segundo turno do torneio. Estreando como titular, ele colaborou
para a vitória por 3 a 1.
O jovem jogador agradou ao técnico
Yustrich e só abandonou a posição de titular na lateral esquerda 13 anos
depois. Antes disso, colaborou para o fim da seca de títulos do
Alvinegro e liderou um dos momentos mais marcantes da história do Timão.
fim do jejum e início da democracia
Wladimir
se firmou e virou unanimidade em um time que carecia de ídolos e
títulos. O Corinthians não erguia um troféu desde 1954, quando faturou
Campeonato Paulista e torneio Rio São Paulo. A cobrança e a ansiedade só
foram terminar em 1977. E o lateral teve participação decisiva na
conquista do Paulistão daquele ano. Na final contra a Ponte Preta, o
Corinthians vencia por 1 a 0 o terceiro jogo da decisão, no Morumbi. A
Macaca pressionava e o Timão buscava um gol para matar o jogo. O técnico
Brandão só pôde comemorar aliviado aos 38 minutos, quando Wladimir
cabeceou, a zaga tirou em cima da linha e Basílio completou para a rede.
2 a 0 e fim do incômodo jejum (veja acima o vídeo com os gols).
Mais
leve, o Corinthians ainda voltou a vencer o torneio em 1980. Mas, no
ano seguinte, veio a derrocada. Oitavo colocado no Paulista e 26º no
Campeonato Brasileiro, o Timão foi obrigado a disputar a Taça de Prata
do nacional de 1982. Foi então que houve a reunião e a decisão para que
os jogadores passassem a tomar decisões vitais que envolviam o elenco.
Tudo era votado. Aqueles que não se adaptaram deixaram o clube, como
lembra Wladimir.
– Em um grupo de 20, 30 pessoas,
lógico que existem aqueles que pensam diferente e quatro ou cinco
saíram. A maioria decidiu que faríamos tudo coletivamente. Isso foi
perfeito porque tínhamos um grupo que pensava mais ou menos a mesma
coisa, consciente das responsabilidades. Graças a isso, atingimos um
estágio maravilhoso dentro do futebol.
De bicicleta, Vladimir marca contra o Tiradentes
na maior goleada da história do Brasileiro: 10 a 1
(Foto: Agência Estado)
Os
resultados foram colhidos dentro e fora do campo. O Corinthians venceu o
Campeonato Paulista de 1982 e 1983, voltou à Taça Ouro do Brasileiro e,
logo de cara, terminou em quarto lugar. Foi a época que mais marcou
Wladimir no Corinthians e que chegou ao fim no início de 1985, quando a
diretoria corintiana não foi reeleita e Jair Pereira assumiu como
treinador. Foi também o fim da Era Wladimir no Corinthians. O lateral
foi dispensado e acertou com o Santo André. Mas ainda não era um
"adeus". Apenas um até breve.
O
presidente do Corinthians, eleito em 1985 e com mandato até 1987, era
Roberto Pasqua.
Quando chegaram as novas eleições do Timão, Pasqua teria
que vencer um cartola lendário se quisesse se reeleger. Seu adversário
foi Vicente Matheus. Para ganhar o apoio dos torcedores, Vicente usou
Wladimir como bandeira de campanha. Se fosse eleito, traria o
lateral-esquerdo de volta.
Foto de Wladimir em livro sobre história do Corinthians (Foto: Divulgação)
Ao
ouvir a promessa do rival, Roberto Pasqua reagiu de forma inusitada.
Prometeu Maradona, que tinha sido eleito o melhor jogador do planeta na
Copa do Mundo de 1986, conquistada pela Argentina. Mas nem Maradona
conseguiu derrubar a popularidade de Wladimir. Vicente Matheus foi
eleito e o lateral-esquerdo, recontratado. Dessa vez, no entanto, a
volta não foi como o atleta esperava e sua passagem foi de apenas um
ano.
- Pela lei do passe da época, eu deveria ter 10 anos de
clube e 32 anos de idade para ser dono do meu próprio passe. Já tinha 10
anos de Corinthians e tinha acabado de fazer 32 anos. Então recebi
outras propostas interessantes e optei por sair - lembra o jogador.
Wladimir
deixou o Corinthians em 1988 para defender a Ponte Preta. Sem ficar
mais de um ano em outro clube na carreira, o lateral-esquerdo passou por
Santos, Cruzeiro e São Caetano. Pendurou as chuteiras em 1991, pelo
Central Brasileira.
Para
alguém que chegou a ser presidente do Sindicato dos Atletas na década
de 1970 e liderou um dos principais movimentos políticos da história do
futebol brasileiro, não é surpresa que após a aposentadoria dos
gramados, Wladimir tenha se arriscado na vida política. Por duas vezes,
tentou ser vereador em São Paulo, mas obteve pouco mais de cinco mil
votos e não conseguiu ser eleito.
Veio então o convite, em
2009, para ser o secretário de Esportes de São Sebastião. Wladimir
aceitou e comandou a pasta na cidade durante quatro anos. Após ser
reeleito prefeito, Ernane Primazzi chamou o ex-jogador para o cargo de
interlocutor para projetos que necessitem de apoio da Câmara dos
Deputados de São Paulo ou de investidores.
Gabriel, filho de Wladimir, comemora título
gaúcho pelo Internacional (Foto: Wesley
Santos / Agência PressDigital)
Wladimir
ainda encontra tempo para acompanhar a carreira do filho Gabriel,
lateral-direito que começou no São Paulo e teve passagens por
Fluminense, Grêmio e, mais recentemente, no Internacional. Apesar das
dicas, o pai afirma que nunca tenta influenciar as decisões do filho, de
32 anos.
– Digo o que acho que tenho que dizer e o que ele precisa fazer. Gabriel já é
maduro, uma pessoa independente. Ele sabe o que quer e sempre fez o que
quis. A gente busca orientar pela vivência.
Mas tenho de respeitar
porque cada um tem um jeito e o mundo é diferente - diz.
Além
de Gabriel, Wladimir é pai de Julio e Ludmilla, mais novos que o
lateral-direito. Todos os filhos são com Roseli dos Santos, com quem é
casado há 35 anos.
FONTE:
http://globoesporte.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2014/02/lembra-dele-wladimir-compara-atual-fase-do-timao-ao-inicio-da-democracia.html