segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Brasil renasce após o primeiro set, domina as americanas e é bi no vôlei


Batida por 25/11 no início, seleção feminina busca forças, repete resultado de Pequim e faz de Zé Roberto Guimarães o único brasileiro tricampeão olímpico


Por Rodrigo Alves e Danielle RochaDireto de Londres


Se houvesse nocaute no vôlei, a final olímpica de Londres teria durado apenas 21 minutos. Foi o tempo que as americanas gastaram para carimbar nas brasileiras um primeiro set avassalador, com incríveis 14 pontos de diferença. Mas a disputa não era de boxe e, além do mais, as meninas que vestiam amarelo neste sábado conhecem muito bem a receita para ficar de pé antes que a contagem chegue a dez. O contragolpe foi imediato na segunda parcial, e, dali para a frente, a torcida que lotou a Arena em Londres viu um Brasil gigante. Valente. Campeão. Bicampeão olímpico. A vitória na final por 3 a 1 (11/25, 25/17, 25/20, 25/17) mostra que os Estados Unidos não são imbatíveis. Que Hooker não é inalcançável. Que as meninas não têm medo de bicho-papão. E que José Roberto Guimarães é o único dos 200 milhões de brasileiros capaz de encher o peito e dizer que tem três ouros em Olimpíadas. Para um grupo tão acostumado a viradas heroicas, nada mais adequado do que festejar a conquista trocando o tradicional peixinho por cambalhotas em série no chão da quadra, diante de um ginásio lotado e eufórico.
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Não é do feitio de Zé Roberto encher o peito para alardear qualquer feito pessoal. Ele prefere entrar na festa com as jogadoras na quadra, mergulhar no peixinho, extravasar no grito. Ajoelhou-se no chão, vibrou muito com cada atleta e, enfim, respirou aliviado após sua campanha mais dramática. Campeão em 1992 com os homens e em 2008 com as mulheres, Zé não ganha as medalhas oficiais, que só cabem às atletas. Não importa. Em Londres, ele carregou o grupo na ponta dos dedos até o título. Ficou por um fio na primeira fase, de calculadora na mão, torcendo - ironia das ironias - por uma vitória das americanas na última rodada para sobreviver.


Sobreviveu e, mais que isso, cresceu. Derrubou a Rússia em jogo espetacular nas quartas, salvando seis match points no tie-break. Arrasou o Japão na semi, com um 3 a 0 sem ressalvas. E marcou para este sábado o reencontro com os EUA, quatro anos depois de batê-las em Pequim. Desta vez, o favoritismo estava do outro lado da rede, com todos os confrontos recentes pendendo para o lado americano. O primeiro set arrasador deixou a torcida com o estômago na boca. Mas a reação provou que, quatro anos depois, as brasileiras ainda são as melhores jogadoras de vôlei do planeta.
- A gente joga por amor. Sabemos que em alguns momentos a gente não conseguiu fazer o melhor e as críticas foram importantes pra gente ver que as pessoas acreditavam na gente. Não posso deixar de agradecer a esse grupo que foi incrível. Nas horas mais incríveis, a gente se uniu, se honrou - disse a líbero Fabi ao SporTV.
Fernanda, Final do Vôlei, Brasil e Eua (Foto: Agência AFP)Fernanda Garay solta o braço: ela foi um dos 
destaques do Brasil na final (Foto: Agência AFP)
Nocaute no início
Nervosa, assim como a torcida, a seleção não conseguia se encontrar no início da decisão. Até fez 1/0 com uma largadinha de Sheilla, mas as americanas entraram com o pé na porta e jeitão de favoritas. Abriram 6/1 com o luxo de não precisar de nenhum ponto de Hooker. Zé Roberto parou o jogo, os ânimos se acalmaram um pouco, mas só um pouco. Se na primeira parada o placar era de 8/3, na segunda já era de 16/7. Tonto em quadra, o Brasil viu as rivais abrirem 22/8 e praticamente só conseguiam pontuar nos erros do outro lado da rede, como os dois em sequência que deixaram o placar em 22/10. Nada aconteceu além disso. Em apenas 21 minutos, fim de papo, com incríveis 25/11.
Quando pareciam mortas, as meninas de Zé Roberto renasceram do nada e abriram a segunda parcial vencendo por 3/0. Ainda viram as rivais empatando logo em seguida, mas conseguiram se manter à frente, até com certa folga. Quando Garay soltou o braço e fez 11/6, o técnico Hugh McCutcheon parou para conversar com suas atletas. Zé estava mais calmo, e o time também, a ponto de segurar a reação e abrir de novo para 18/12, em bom momento de Jaqueline. As nocauteadas da vez eram as americanas, que não acharam as bolas e viram o Brasil igualar o jogo com a autoridade de um 25/17.
Thaisa Menezes, Final do Vôlei, Londres 2012  (Foto: Getty Images)Thaisa chega ao bicampeonato, assim como Sheilla, Fabiana, Fabi, Paula e Jaqueline (Foto: Getty Images)
"O campeão voltou", gritava a torcida em altos decibéis numa arquibancada completamente tomada pelo amarelo, com pequenos focos de azul, vermelho e branco. O Brasil estava em casa, e motivado. Abriu o terceiro set vencendo por 6/2. Com autoridade, foi conduzindo bem a vantagem e segurou uma forte reação americana na metade da parcial. Na segunda parada, vencia por 16/13. Com Akinradewo virando todas, não foi fácil arrastar o set até o fim. Mas deu. Com Jaque, Garay e Sheilla largando o braço no ataque, veio o que ninguém imaginava após aquele primeiro set: 25/20 e uma virada na raça.
Na quarta parcial, nada de apagão. Concentrado, o time brasileiro sabia que do outro lado da rede não haveria entrega, mas manteve a cabeça no lugar para chegar à primeira parada técnica com 8/6. Com a capitã Fabiana crescendo, o que já estava bom ficou ótimo nos 16/10. Zé mandou à quadra Natália, outro símbolo de reação no grupo. Quase cortada por uma lesão na canela, ficou até o fim, entrou poucas vezes, mas é tão campeã quanto qualquer outra. Àquela altura, as americanas até ensaiavam uma reação, mas já não pareciam tão ameaçadoras. E o Brasil segurou até o fim, com a pancada de Garay que imortalizou o momento: 25/17, 3 a 1, ginásio histérico.
Festa dupla para as bicampeãs Sheilla, Fabiana, Fabi, Paula Pequeno, Thaisa e Jaqueline. Festa inédita para Dani Lins, Fernanda Garay, Fernandinha, Natália, Tandara, Adenízia. Festa mais do que merecida para Zé Roberto, ou apenas Zé. O único Zé tricampeão olímpico.

FONTE:
http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/noticia/2012/08/brasil-renasce-apos-o-primeiro-set-domina-americanas-e-e-bi-no-volei.html

Giba, sobre despedida da seleção: 'Não foi da forma que eu esperava'


Ponteiro lamenta não ter podido ajudar equipe do jeito que queria na final e diz que deverá virar dirigente esportivo quando deixar as quadras

Por Danielle Rocha Direto de Londres

Na foto que vai ilustrar a última página do álbum cheio de imagens de sua carreira na seleção, Giba esperava se ver chorando, sim, mas com uma medalha de ouro no peito. A lembrança da partida que marcou o fim do ciclo de 20 anos de bons serviços prestados com a camisa do Brasil vai ser prateada e um pouco amarga. O título escapou de uma forma que nem eles sabem explicar. De uma hora para outra, o que era alegria virou tristeza.

- Não foi da forma que esperava. Quando botei a cabeça no travesseiro ontem à noite, sonhava com esse momento. É difícil colocar na balança. Perder é sempre uma droga. Agora, é levantar a cabeça. Três Olimpíadas, três medalhas, três finais olímpicas. A geração de prata é lembrada como a "Geração de Prata". Nós somos ouro, prata e prata. Tenho muito orgulho disso - disse.

vôlei giba bruninho wallace sidão brasil rússia Londres 2012 (Foto: Agência Reuters)Giba consola Bruninho durante a cerimônia de premiação (Foto: Agência Reuters)

No roteiro da despedida, Bernardinho deixou o jogo estar sob controle para chamar seu capitão à quadra. Até então, Giba assistia do banco ao passeio dos companheiros com sorriso no rosto e doido para dar sua contribuição. Tirou o casaco, foi chamado pelo técnico e entrou para sacar quando o placar marcava 21/18 para o Brasil, quase no fim do terceiro set. Teve seu nome gritado pela arquibancada.
Só que o pontinho esperado não veio, a vitória não veio, e a Rússia respirou. O capitão voltou no set seguinte, mas não teve muito como ajudar. Os adversários cresceram e tomaram as rédeas da partida. Não houve força nem tempo para mais nada.

É outro pique. Já estive lá dentro, sei que é difícil entrar no meio do jogo"
Giba

- É outro pique. Já estive lá dentro, sei que é difícil entrar no meio do jogo. Fiz meu melhor. Tentei fazer o máximo para ajudar a ganhar, mas não foi suficiente. Minha grande medalha de diamante no vôlei são meus filhos, minha esposa. E mais ainda é ter orgulho de saber que ajudei muita gente. Gente que saiu do coma, gente com leucemia, ajudei as pessoas a acreditar no sonho de viver.

Em meio às lágrimas, Giba parecia lembrar de todo esforço que tinha feito para estar ali mais uma vez e ainda consolava Bruninho. No último ano, uma fratura na tíbia esquerda deu trabalho. Aos 35 anos, ele decidiu passar pela primeira cirurgia da carreira para poder se despedir em Londres. Em fevereiro colocou uma placa de titânio e mirou-se no exemplo de Nalbert, que antes de Atenas-2004 teve de operar o ombro e voltou antes do prazo previsto. Queria, como ele, terminar com um ouro. O segundo em sua galeria. Não deu.
Queria também corrigir o rumo. E isso Giba conseguiu. Refez contato com Ricardinho, o amigo de longa data, de quem ficou afastado durante cinco anos. Agora, o ponteiro tenta se acostumar com a ideia de virar um espectador da seleção que defendeu com tanto amor. Nos próximos dois anos vai morar na Argentina, onde defenderá o Drean Bolívar.

- Tenho mais dois anos de contrato. A escola das crianças já foi mudada para lá. Tenho vários patrocinadores, muitas coisas para fazer no Brasil e tenho que cumprir. Vou cumprir o primeiro ano de contrato na Argentina e depois, com a minha esposa, decidir o que fazer. Comecei a fazer vários cursos de manager esportivo. É o que gosto. Tem gente que fala que eu daria um bom técnico. Até poderia, mas não tenho vontade. Minha vontade é passar minha experiência dentro de quadra e fazer com que as coisas melhorem ainda mais.

FOMTE:
http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/noticia/2012/08/giba-sobre-despedida-da-selecao-nao-foi-da-forma-que-eu-esperava.html